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Causos, Tailândia

Tuk-tuk nervoso

8 de dezembro de 2016

Andar de tuk-tuk é quase uma obrigação moral quando você desembarca na Tailândia. Assim como visitar o Cristo no Rio, a Torre Eiffel em Paris ou o Parlamento de Budapeste, não dá pra deixar de lado essa investida turística. Obviamente também fizemos nossa parte, mas preciso contar alguns detalhes sobre isso…

Como já contado aqui, nosso primeiro passeio por Bangkok teve um contexto diferente do comum. Nosso primeiro pensamento foi pegar um táxi para a Embaixada, mas fomos abordados por um “gerente de tuk-tuks” pouco depois de sair do hotel. Essa é a primeira informação nova, da qual não dispúnhamos: em nosso roteiro pelos três países do Sudeste Asiático, tuk-tuks e táxis SE OFERECEM pra te levar a todo momento, em qualquer lugar. Você não precisa se preocupar muito em procurá-los… eles acabam chegando até você por conta própria.

Nosso possante, e o chofer.

E dá pra confiar?

Então… é um ponto a ser analisado. Sempre procuramos nos informar sobre valores com os funcionários dos hotéis por onde passamos. Mas nesse caso específico – da história que vou contar – não fizemos isso. E no final das contas, nos pareceu um preço bem justo o que nos foi oferecido (esse é outro ponto). Precisávamos ir à Embaixada. O cara nos ofereceu um tour por 4 templos. Nossas condições foram: ok, a gente faz um tour, desde que o tuk-tuk nos leve também (e antes) onde de fato precisávamos ir. Estando de acordo, o tal “gerente” nos cobraria 600 Baht. Ameaçamos chorar o valor, e o cara já nos deu um papelzinho e uma caneta. “Escreva aí o preço que você quer pagar“, ele disse. Sim, isso é um expediente DOS MAIS COMUNS por lá. Fechamos por 400 (que dá pouco menos de R$ 40 em câmbio atual). Por uma manhã inteira e metade da tarde de transporte dedicado, achamos um preço ótimo.

Dica:

Tivemos posteriormente outra experiência, onde orçamos o trajeto de tuk-tuk de alguns pontos até nosso hotel. Valores acima de 100 Baht nos desanimaram a fazê-lo (o mesmo trajeto de táxi daria coisa de 35 a 40 Baht, e o equivalente caminhando daria coisa de 20 minutos). Então, mesmo sendo bastante barato (100 Baht não dá nem 10 Reais) não banque o tonto caso seu orçamento não seja generoso. Nessas brincadeirinhas que a grana vai embora.

Com valores combinados, um dos rapazes nos levou até a Embaixada. Mais um ponto a ser considerado: nosso motorista falava quase nada de inglês – e entenda-se por quase nada QUASE NADA MESMO. Então combine direitinho o que você quiser fazer antes com quem pode orientar essa galera.

As primeiras movimentações do luto pelo Rei já estavam nas ruas. Vimos de perto, literalmente.

E de perto também acompanhamos o trânsito caótico de Bangkok, com suas trocentas motos.

É sim um ótimo jeito de conhecer a cidade, com seus sons, cheiros e cores. Andar naquele troço é um barato, seja pelo espaço reduzido, seja pela situação de exposição quase que total. Além disso, existe uma vantagem que ficou clara quase que imediatamente: com o trânsito caótico de Bangkok, o tuk-tuk se vira muito bem em espacinhos minúsculos, e vielas que mais parecem ter saído de algum filme do Snake Plissken.

Comodidade de táxi, habilidades de moto.

O roteiro ao qual o passeio se prestou – além da providencial visita à Embaixada – foi num todo muito bom. A cada parada nos templos, nos era dado o tempo que quiséssemos para conhecer, fotografar e até mesmo descansar, pois o calor castigava. Não espere por maiores explicações sobre cada lugar… como dito anteriormente, é um motorista, e não um guia. Mas claro que existia um algo mais que não sabíamos, e que nos proporcionou aquele que seria o momento mais bizarro da viagem.

Vocês vão me perdoar, mas eu não lembro o nome dos templos… se eu lembrar edito essa legenda mais pra frente.

Wat Benchamabophit foi o primeiro complexo de templos de fato que visitamos. E por complexo, entenda que nele existiam desde desse simpático riozinho…

…passando por áreas gramadas muito bonitas…

…até chegarmos ao Marble Temple. Um gigante absolutamente espetacular.

Pra sentar e contemplar (mentira, tava um calor do inferno e eu precisava tomar água – e ar).

Alguns dos detalhes de Wat Benchamabophit. É pra visitar com calma e agradar aos olhos.

Meias sujas*: uma constante à qual nos acostumaríamos rapidinho (sujas nada, os templos são bem limpinhos).

Logo após o primeiro templo, o rapaz disse que nos levaria a uma “thai factory“. Não sabíamos do que se tratava, aquilo não havia sido comentado na hora da contratação do serviço… mas “ok, vamos para a tal fábrica então! Afinal, estamos viajando… deve ser divertido!” – pensaram os bocós. Alguns minutos depois o dito cujo estaciona em frente a uma loja, e nos pede para entrar. Com uma interrogação latente no meio da fuça, entramos. Fomos prontamente muito bem atendidos por um vendedor – outros tantos estavam sentados próximos à porta, que nos pediu pra sentar. Aí a coisa ficou bizarra de verdade.

Um dos caras trouxe dois catálogos, com ternos e vestidos, e nos entregou. Ficamos com cara de idiota, sem saber o que fazer com aquilo. Começamos a folhear automaticamente, enquanto o cara explicava que “eles faziam qualquer peça, era só pedir“. Então bateu um desespero, e eu desandei a arriscar meu inglês tentando sair daquele beco em que estávamos metidos…

– Não é o nosso estilo – eu comecei.
– Nosso material é de qualidade, você pode ver…
– Eu tô vendo, mas não é nosso estilo.
– Que tal gravatas?
– Eu trabalho em casa. De camiseta e cueca.

E a Dé num silêncio desesperador.

A gente tem uma parte do guarda-roupas reservada para “roupas de casamento”, que numa tradução simples significa: temos somente UMA ROUPA para tais ocasiões. NUNCA que a gente vai atravessar o mundo pra comprar terno e vestido, macacada! Depois de mil pedidos de desculpa, saímos da loja com cara de merda. Assim que voltamos ao tuk-tuk, expliquei da forma mais simples possível pro motorista que aquele programa foi uma fria, e que a gente detestou. Seguimos para novas visitas.

Wat Intharawihan – o Big Buddah, também conhecido como Budão.

Pois bem… assim que terminamos de visitar os templos, o cara parou NOVAMENTE num cacete de uma loja de roupas. Eu falei que não ia entrar, e então veio a revelação de que os motoristas são pagos por essas mesmas lojas (no caso dessa especificamente, pagavam a gasolina do fulano) para levar os turistas até lá. Ele pediu para que a gente pelo menos entrasse, ou ele não receberia. E lá fomos nós de novo ouvir a mesma ladainha – mas dessa vez, já preparados pra dar um cambau na primeira oportunidade. Demos, todo mundo ficou feliz, o menino recebeu o dinheiro pra gasolina e concluímos o nosso passeio com mais uma história bizarra no bolso.

Thai Factory o cacete. Malditas lojas de ternos e vestidos.

E foi assim, o nosso primeiro passeio de fato em Bangkok: tuk-tuk, templos e lojas de ternos. Tudo novo, muita coisa bonita, muita coisa zoada. Como toda boa viagem deve ser – e seria, como contaremos mais adiante.

Causos, Tailândia

Um bilhetinho escrito em Thai

1 de dezembro de 2016

Durante nossa viagem, publicamos a foto da Dé com um bilhete, com um endereço escrito em thai. Prometemos explicar o contexto daquilo depois. Bem, chegou a hora.

Mas antes de falar do tal endereço, vamos relatar o ocorrido.

Chegamos na Tailândia pelo Aeroporto Internacional Suvarnabhumi. Seguimos apressados para a imigração, depois de dois vôos consecutivos e uma conexão que nos tomaram mais de 24 horas de viagem, e viraram nosso fuso de ponta cabeça. Nossa empolgação era evidente, e se sobrepunha ao sono e cansaço causados pela viagem.

Poucos segundos depois, essa alegria toda ia virar farinha.

Poucos segundos depois, essa alegria toda ia virar farinha.

Chegando lá, uma fila enorme que muito provavelmente nos faria esperar por mais de meia hora. Uma atendente que fazia a triagem da fila pede nossos passaportes, e vendo que éramos brasileiros nos pede para que sigamos ao Controle de Saúde. A Dé fica BRANCA, instantaneamente. Eu não entendo e pergunto o que aconteceu.

– Esqueci as vacinas em casa, no outro passaporte.

Acompanhado daquele famoso palavrão que começa com F.

Acompanhado daquele famoso palavrão que começa com F.

Nossos passaportes estavam novinhos, pois os anteriores venciam naquela data. E a vacina de febre amarela é obrigatória nos três países que visitaríamos. Havíamos tirado a dita em 2011, antes de embarcar pra Bolívia, e NUNCA pediram aquele raio de papelzinho em lugar nenhum. Que hora – e que lugar – pra isso acontecer…

Eu imaginava que não nos mandariam embora por isso, enquanto ela se sentiu absurdamente culpada por ter esquecido algo tão importante. Seguimos para o Controle de Saúde, onde preenchemos um formulário e pegamos a fila para o atendimento. Uma mocinha simpática, um gordinho sorridente e um cara mal-encarado estavam atendendo as pessoas. Nem preciso dizer qual dos três nos atendeu.

A primeira coisa que o Zangado (será chamado assim até o final desse texto) perguntou foi onde estavam nossas vacinas. “Esquecemos em nossos passaportes antigos“, a Dé respondeu. Ele então fez aquela cara que seu professor fazia quando você dizia que o cachorro comeu sua lição de casa, e nos mandou pro cantinho da vergonha, que ficava logo ao lado dos guichês. “Esse cara vai dar uma puta canseira na gente“, eu disse. E por lá esperamos, enquanto uma galera era atendida. Ninguém olhava pra gente, ninguém mencionava o que aconteceria. Existia uma casinha ao lado, onde supostamente as pessoas que não tinham o documento eram vacinadas e recebiam o certificado. Parecia ser esse o nosso destino, mas tudo era dúvida naquele momento.

O Zangado sai do guichê. Encosta na gente e pede num inglês macarrônico (ao qual nos acostumaríamos durante a viagem, mas que naquela hora nos parecia uma engasgada) que cada um pagasse a ele 700 Baht.

Não era bem vacina o que a gente ia levar na bunda: o negócio era propina mesmo.

Bem-vindos à Tailândia. E sim: corrupção não é exclusividade nossa, por incrível que pareça.

De fato o problema do mundo é o PT (o Pilantra Tailandês). Tá explicado!

De fato o problema do mundo é o PT (o Pilantra Tailandês). Tá explicado!

Por uma sorte ABSURDA havíamos sacado nossos dólares em Dubai, durante a conexão. Uma decisão de última hora, mas que salvaria nossas vidas, uma vez que o ATM em que poderíamos sacar os 1400 Baht estava localizado DEPOIS da imigração.

Alegria em Dubai, quando fomos espertinhos e mal sabíamos da merda que daria dali a algumas horas.

Alegria em Dubai, quando fomos espertinhos e mal sabíamos da merda que daria dali a algumas horas.

Trocamos nosso dinheiro na casa de câmbio ao lado, e voltamos pro Controle de Saúde. Sinalizamos pro cara que estávamos com o dinheiro, e ele nos mandou de volta pro cantinho da vergonha. Esperamos mais um pouco, e o Zangado veio até a gente. Novamente num inglês lamentável, ele nos instrui a colocar o dinheiro dentro do passaporte. Entregamos um, ele retirou o dinheiro. Entregamos o outro, e sabe-se lá porquê ele nos devolveu o restante do dinheiro. Carimbou a autorização do Controle de Saúde e mandou a gente sair dali.

Problema resolvido? Não exatamente.

Passamos pela imigração e entramos enfim na Tailândia. Aquela parte do problema estava resolvida. Mas dali a dois dias iríamos para Hanói, e a tal vacina também seria pedida no Vietnam. Teríamos que dar um jeito de explicar pros caras como conseguimos entrar na Tailândia sem o documento (ou mentir, dizendo que o perdemos no aeroporto – e essa certamente seria a desculpa mais aceitável, uma vez que apontar que “o funcionário nos pediu propina e nós pagamos” talvez não fosse um argumento muito bem aceito pelos vietnamitas).

Fomos para o hotel, nos instalamos, saímos pra comer alguma coisa, voltamos e fomos dormir. Em teoria teríamos dois dias pra contornar a situação. Acordei às 4h, já sem sono algum, e comecei a pensar em como sair daquela roubada. Pouco depois a Dé acordou. Soubemos naquela hora que o rei havia morrido, mas isso não era a prioridade do momento. Veio então a ideia:

– E se minha mãe passasse em casa e escaneasse os documentos pra gente?

Sim, seria um trunfo. Poderíamos contar a mentira, mas pelo menos comprovar de alguma forma que sim – aqueles documentos existiam. Com ela morando perto de casa e com a minha cópia das chaves, podia funcionar… afinal de contas, ainda era final de tarde no Brasil. Liguei pra ela, ela topou na hora. MELHOR MÃE DO MUNDO, A MINHA. Tava de pijama e já desligou se aprontando. Emendei outra possibilidade absurda:

– E se eu pedisse pro Kadu fazer isso?

Afinal de contas, minha mãe tem seus “limites tecnológicos” com seus quase 70 anos – coisa que não seria problema pro Kadu. Arrisquei um whatsapp. Ele topou na hora e já estava a caminho poucos minutos depois. AMIGO DE BERÇO É OUTRO NÍVEL. Passou na casa da minha mãe, e seguiram pro nosso apartamento. Pouco depois recebíamos as fotos dos documentos. Nossa alegria E ALÍVIO com aquelas imagens eram imensuráveis. Nossa viagem tinha jeito, mesmo com aquele improviso todo.

Agradecidos e com a cabeça mais calma, começamos a pensar em qual seria DE FATO a solução definitiva. Ainda não eram 8 horas quando decidimos: melhor ir até a Embaixada. Afinal, lá a gente podia contar a tal mentira (e entenda-se: só estávamos apelando pra mentira porque era de fato o meio mais seguro pra agir naquelas circunstâncias), e receber uma autorização, solicitar segunda via da vacina, sei lá… Pegamos o endereço, descemos e pedimos indicações pra moça da recepção do hotel. Ela nos ajudou…

…E ESCREVEU O ENDEREÇO EM THAI, pra gente mostrar pro taxista. Olhaê a explicação:)

Agora sim parece coisa que se entende :)

Agora sim parece coisa que se entende 🙂

Afinal de contas, é tudo em thai naquela joça. Como a gente nunca sabe onde vai parar e pra quem pedir ajuda, instruções em thai são sempre muito bem-vindas. E vale o detalhe: aquele app do Google de tradução simultânea NÃO CONTEMPLA THAI. Então, sempre que alguém se oferecer pra traduzir suas coisas pra thai, ACEITE (e entregue pra Deus, porque não dá pra saber o que aquela instrução virou nesse monte de rabisquinho simpático).

Com o bilhete em mãos, fomos procurar um táxi. Acabamos optando por um tuk tuk (e sobre ele falaremos em outro texto). Seguimos até a Embaixada, onde explicamos a história. Conseguimos providenciar uma segunda via, porém ela só seria recebida terça ou quarta (era uma manhã de sexta, e iríamos para o Vietnam no domingo). Conversamos com o Cônsul, que nos recomendou despreocupação – disse que ia o tempo todo para Vietnam, Laos e Camboja, e somente na Tailândia a tal vacina era solicitada. Dias depois isso foi de fato comprovado, e não tivemos maiores problemas no restante da viagem.

Nosso primeiro transporte da viagem, com todas as suas peculiaridades.

Nosso primeiro transporte da viagem, com todas as suas peculiaridades.

Nesse dia instituí a frase “vai ficar tudo bem” nessa viagem. Foi usada várias vezes, e ficou tudo bem mesmo. A foto era de um papelzinho. A história dá mais de página.

Tailândia

O rei está morto. Vida longa ao rei.

22 de novembro de 2016

Viajar por mais de 24 horas, chegar ao seu destino, e descobrir que o rei morreu. Rei esse que não era apenas um rei, mas uma semi-divindade aos olhos da população; que reinou por sete décadas; que você nunca ouviu falar, mas que num contexto geral deixa claro que sua visita não será exatamente aquilo que você imaginava. Assim começa nossa viagem/saga pelo Sudeste Asiático.

Num fuso horário de 11 horas, recebi de uma amiga pouco antes de dormir a notícia de que Bhumibol Adulyadej tinha batido as botas no exato momento em que deixávamos o aeroporto. Não é das coisas que o taxista ou a recepcionista do hotel te contam, e depois de atravessar o mundo a última coisa que você quer é ligar a televisão. Saímos para comer alguma coisa, ainda perdidos, e ao voltarmos ao hotel fomos direto pra cama. Foi nessa hora que o whatsapp chegou.

Acabamos acordando muito cedo na manhã seguinte, e nessa hora contei pra Dé sobre a morte do dito. Nossa primeira manhã em Bangkok seria bastante atípica (mas essa história contamos mais pra frente), sendo que nossa agenda só seria cumprida lá pela metade da tarde*. Voltamos para Ratchadamnoen Klang Rd, uma das principais avenidas do distrito de Phra Nakhon, muito próxima ao nosso hotel. Com as opções de voltar ao dito ou dar mais uma passeada pelos arredores, escolhemos a segunda. E dali em diante nossa ficha caiu.

A intenção era chegar ao Grand Palace, pois ainda era meio de tarde e a visitação estaria aberta – um raciocínio completamente torto, dado o acontecimento da noite anterior. O rei seria velado justamente no Grand Palace, e não fazíamos ideia do que havia se passado na cidade durante aquela manhã. Mas agora que estamos em casa, dei uma busca rápida no YouTube pra encontrar o que a gente perdeu (e o que explicaria o cenário que encontraríamos logo mais):

Caminhando em direção ao nosso destino, uma horda de MILHARES de pessoas vinha chegando na direção oposta. E quando digo milhares, acho que uma imagem vale mais do que qualquer ênfase que esse texto possa tentar transmitir.

Não era o show do Ozzy, mas parecia.

Não era o show do Ozzy, mas parecia.

E quando eu digo que não dava pra passar, não dava mesmo.

E quando eu digo que não dava pra passar, não dava mesmo.

Prosseguimos um pouco mais, imaginando que aquilo talvez fosse “uma onda” de gente, mas a cada avanço a multidão se tornava mais e mais compacta. O acesso aos templos posteriores seria impossível. Em determinado momento paramos, e vencidos começamos a retornar, acompanhando a multidão. Era um cortejo espontâneo, de proporções inéditas pra gente: enlutadas estavam pessoas de todas as idades; gente tirando selfies e fotos ao lado de imagens do rei; alguns abatidos, outros nem tanto; grupos conversavam, outros seguiam em silêncio. Aquilo jamais poderia ter sido organizado por TV, facebook ou qualquer outra coisa. Aquilo ali era um movimento popular de verdade.

Um dos vários registros de fotos ao lado de imagens do rei.

Um dos vários registros de fotos ao lado de imagens do rei.

Aquela cara de "satisfação constrangida" por ter vindo com a roupa certa, mas pra festa errada.

Aquela cara de “satisfação constrangida” por ter vindo com a roupa certa, mas pra festa errada.

Então, é hora de fazer um adendo:

Antes que você, amiguinho recém-politizado e chato de doer, vier comentar que “se fosse aqui no Brasil blablablá…”, eu vou me adiantar e te dizer uma coisa que você vai me prometer não mais esquecer toda vez que eu citar essa viagem: Oriente e Ocidente são coisas totalmente diferentes. E não, não quero dizer que esse é melhor ou pior que aquele, mas sim que culturalmente é colocar lado a lado um pinguim e um camelo. Partindo-se dessa afirmação tão conhecida (e tão verdadeira), já deixo aqui registrado que toda comparação dentro desse prisma é – pra dizer o mínimo e sendo muito educado – burra.

Estamos entendidos? Então vou continuar daqui.

Seguimos em direção ao hotel, agora com todo o caminho já enlutado e repleto de gente. Dos dias que se seguiram, tive a atenção chamada por um tailandês após sair de um dos trocentos templos budistas da cidade justamente por estar com uma camiseta verde (e não preta). E de nada adiantou minha cara de bosta por não querer vestir preto num calor de mais ou menos 35 graus – a questão não era calor ou frio, mas respeito. Pode parecer abusivo, mas reafirmo: em poucos dias dessa viagem, ficou muito claro pra mim que ocidentais nunca vão entender o Oriente, por mais esforço que se faça. E aceitar essa diferença deixa tudo muito mais fácil.

Pra não deixar uma impressão ruim sobre esse primeiro momento, conseguimos nos aproximar do Grand Palace no dia seguinte. Perto dali já haviam montado tendas de apoio aos visitantes e locais, com água, comida e atendimento médico a quem quisesse e/ou precisasse. Detalhe: NADA era cobrado. E mesmo que você tivesse acabado de chegar, não estivesse de preto e notoriamente não fosse tailandês o tratamento era igualmente cordial e atencioso. Uma coisa comovente de verdade.

A aglomeração no Monumento à Democracia, já no final da tarde...

A aglomeração no Monumento à Democracia, já no final da tarde…

...e uma das diversas tendas de apoio no dia seguinte.

…e uma das diversas tendas de apoio no dia seguinte.

A morte do rei comprometeu nossos planos para Bangkok, isso é inegável. Mas trouxemos outros exemplos, lições e momentos muito difíceis de serem explicados. Assim como é difícil recomeçar a escrever aqui no Faniquito.

Mas a gente se adapta, e a viagem segue em frente. O luto duraria um mês (nossa viagem também), e traria novas histórias mais pra frente.


*Durante nossos afazeres matinais, fizemos uma pausa pra comprar um sorvete numa biboca de uma senhora que não falava inglês, mas que se fazia entender na base da calculadora. Após pagarmos o sorvete, essa mesma senhora fez uma reverência à Dé, tocando na blusa dela (que não entendeu imediatamente o que havia acontecido). Poucos segundos depois, ficou claro: a Dé estava de preto, e a senhora agradeceu pelo luto. Foi bonito.

Causos, Faniquito

Janela ou corredor?

3 de maio de 2016

– Vocês já conhecem a cidade?
– Não, é nossa primeira vez.
– Então troquem de lugar comigo.

E dessa maneira ganhamos a janela de presente na chegada ao Aeroporto Internacional Malvinas Argentinas. Janela. Um lugar onde eu me acostumei a não sentar desde que casei, por puro e simples cavalheirismo. É de lá que a Dé tira as primeiras fotos de qualquer viagem que a gente faça, e as últimas também. Fotos essas que não costumam figurar em nossos álbuns com grande destaque: reflexos, sujeira, falta de foco e mais um punhado de péssimas condições que não fazem desses registros motivo de orgulho.

Se algum morador ou conhecedor da cidade/destino te oferecer a janelinha...

Se algum morador ou conhecedor da cidade/destino te oferecer a janelinha…

...aceite sem pestanejar.

…aceite sem pestanejar.

Mas é da janela que o gatilho é apertado. Quando o avião acelera na pista, sabemos que começou. A imagem de deixar para trás por alguns instantes tudo e todos que conhecemos para mergulhar numa nova realidade é um dos significados mais verdadeiros do faniquito. Quem está no corredor olha pro lado. Quem está na janela volta a ter 8 anos e passa a procurar predinhos, identificar carrinhos, pessoinhas e tudo o que ficou lá embaixo enquanto o avião decola.

É da janela que a gente enxerga o horizonte ficar levemente torto. Entende a geografia dos rios. Reencontra cartões postais. Se diverte na fofura inacreditável e infinita das nuvens. Deixa para trás chuva e neblina, enquanto mergulha num azul perfeito. E é dela também que temos as primeiras e distantes impressões de nosso destino, quando ele deixa de ser vontade pra se tornar realidade.

De zero a dez, sua vontade de rolar em cima dessas nuvens é...

De zero a dez, sua vontade de rolar em cima dessas nuvens é…

A janela do avião é a moldura desajeitada de muitas imagens que quase sempre guardamos pra gente, e pra mais ninguém. Impressões lindas como a chegada àquele primeiro aeroporto citado no início desse texto, a saída assustadora de um corredor de prédios quando decolamos de Congonhas, o tapa na cara que é a chegada ou a saída do Santos Dumont – possivelmente um dos visuais mais avassaladores do mundo, sem exageros.

A bela.

A bela.

A fera.

A fera.

E mesmo quando dela nada se vê, com exceção das luzes da cidade que se aproxima, o ar automaticamente se renova e, por alguns instantes, é possível deixar pra trás tudo o que até aquele momento pesava nas costas. Novos dias num novo lugar – inédito ou não, que não faz parte da sua rotina, e por consequência ainda tem aquele sabor de presente de Natal.

É a única janela da qual vale a pena ver o mundo. Mas não por acaso, quando as portas são abertas, a vontade de conhecer o que está lá fora ultrapassa qualquer belo horizonte – registrado ou não – que possa ser vislumbrado por aquele quadradinho (que nem é tão quadrado assim).

Venezuela

Uma saga chamada Roraima (6/6)

12 de abril de 2016

Com muita tranquilidade, acordamos para nosso último dia no Monte Roraima. Voltar a dormir na primeira base foi um misto de alívio e realização, uma vez que havíamos sim vencido o gigante, e toda dor dali em diante faria parte do preço pela aventura. Podíamos lidar com isso. Além do mais, havíamos tomado banho após longos dois dias e meio, e a sensação de ares renovados ultrapassava qualquer explicação que eu seja capaz de dar.

Pro meu azar, o café da manhã era omelete (eu não como ovo). Não lembro qual a opção que havia naquele momento, mas sei que havia uma, e tomamos nosso café da manhã sem pressa. Arrumamos nossas coisas, e a última coisa a ser feita foi calçar as botas pela última vez. Os pés estavam machucados demais, e seriam mais 13 quilômetros naquela condição. Mas botamos a mochilinha nas costas e seguimos.

Sem a pressão da descida, fizemos o caminho de volta sem atropelos. Com o corpo já aquecido, as dores aumentaram e o cansaço não tardou a aparecer. Mantivemos nosso ritmo (que era lento, mas constante) e seguimos adiante, com rápidas pausas pra água e algum descanso. O visual da manhã era lindo, e o tempo ainda ameno nos ajudava.

Não é todo dia que essa é sua paisagem matinal.

Não é todo dia que essa é sua paisagem matinal.

Com o calor aumentando, o restante do grupo se distanciou e novamente restamos apenas nós dois. Caminhávamos lentamente no trecho final, e já nos últimos metros, quando existiam subidas e descidas, tomamos todo o cuidado do mundo para não aumentarmos ainda mais os problemas físicos que vínhamos acumulando pelo caminho: as articulações estavam doídas, as costas pesavam e a respiração não era fácil – mas tudo isso devido à nossa total falta de preparo para a aventura. Quando avistamos a entrada do parque, fomos tomados de uma alegria tão grande que a única coisa que pensávamos naquele momento era “vamos chegar”. E chegamos.

Assim como ocorreu durante nossa chegada ao Roraima, o grupo todo nos aguardava e comemorou nossa vitória. Eu segui direto pro banheiro, onde tomei um banho na pia e fiz aquele xixi na alvenaria que há quase uma semana não fazia. Quando voltei, a Dé estava encostada, com a pressão caindo. Corri em direção ao Ricky, e ele ainda mais rapidamente foi socorrê-la. Puxou do bolso um vidrinho com extrato de cânfora e fez a pequena ressurgir numa fungada só que ela deu. Os jipes chegaram na sequência, e ele ordenou que ela fosse a primeira a entrar, e ficasse próxima dele durante nossa volta. O mesmo guia que havia me recomendado não subir, que tirou um sarro com a nossa cara na noite anterior e que salvou a pele da Dé em nossos últimos momentos por lá. Um cara legal, o Ricky.

Crentes que seríamos levados direto pro hotel em nossa volta, qual não foi nossa surpresa quando o jipe tomou o sentido contrário na rodovia principal e seguiu adiante. Pouco depois, o dito parou num restaurante de beira de estrada. Nosso fechamento seria UM ALMOÇO. COM CERVEJA GELADA. E COCA-COLA GELADA.

Sério povo, vocês não imaginam o que é aproveitar um momento.

Apesar de ter mais gente na foto do que no nosso grupo, é essa nossa segunda e última foto conjunta na até o momento maior aventura das nossas vidas.

Apesar de ter mais gente na foto do que no nosso grupo, é essa nossa segunda e última foto conjunta na até o momento maior aventura das nossas vidas.

Enfim, relaxamos. Devidamente comidos, agora sim seríamos deixados no albergue do Backpackers (que era vizinho ao nosso, ou seja, fomos deixados na porta do nosso destino). Mochilinhas e mochilões desembarcados, a primeira providência foi um banho de chuveiro. E que coisa linda é essa coisa de chuveiro, não? Ventilador no teto. Uma cama macia. Um teto sobre a cabeça. A gente valoriza tudo depois de não ter nada, e que diferença é nossa cabeça apenas uma semana depois. Do grupo, alguns amigos permanecem em contato com a gente até hoje, e de tanta dificuldade carregamos as melhores lembranças – principalmente, porque as dores passam. No corpo, na vida… só fica o que é bom.

E é por isso que a gente viaja.

Venezuela

Uma saga chamada Roraima (5/6)

22 de março de 2016

Acordamos cedo, de verdade. Não sei que horas eram, mas ao abrir a barraca não existia Monte Roraima. Tudo era névoa, e a sensação é que estávamos (e devíamos estar mesmo) no meio de uma nuvem espessa. Não era um bom sinal, pois a descida era perigosa mesmo em condições climáticas ideais. Aquele clima multiplicava o perigo. Fechamos a tela e começamos a nos trocar. Dez minutos depois, abrimos novamente e… nem sinal de névoa. Mesmo escuro, o céu estava aberto. Não há meteorologista que consiga decifrar o que acontece lá em cima…

O café da manhã consistia num mingau HOR-RO-RO-SO, e uma maçã. Nosso guia disse que era o desjejum ideal, e por isso encaramos até onde nosso estômago aguentou. Passamos para a maçã em seguida (pra tirar aquele gosto de papa da boca), e de barriga cheia arrumamos nossas coisas. Antes da descida, o Ricky reúne o grupo e pede para que todos oremos por um retorno em segurança. Definitivamente o papo sobre os perigos daquela manhã era bem sério. Seguimos.

O caminho era exatamente o mesmo de dois dias antes, no sentido inverso, com o agravante de somar a quilometragem do segundo dia, para que chegássemos à primeira base – aquele em que dormimos no primeiro dia. No total, eram 17 quilômetros pelo caminho, sendo 4 pra baixo e 13 pra frente. Pra animar, um visual inspirador antes da descida.

Era só descer. Simples, não?

Era só descer. Simples, não?

O primeiro trecho era justamente o Paso De Las Lágrimas, agora pra baixo. Pedras molhadas, um cuidado desgraçado, por muitas vezes encaixamos o corpo e fomos descendo quase de bunda. O grupo vinha unido, e com ordens expressas de não parar para fotografias naquele local sob hipótese alguma (o que explica um pouco a falta de imagens desse texto). No meio da descida, o celular da Dé dispara um alarme que ela esqueceu de desligar. Sem poder parar, seguimos com o alarme tocando por uns 20 minutos até a primeira parada. Uma cena que de tão ridícula foi engraçada demais.

Vencida essa etapa, agora “era só descer”. Parece fácil falando assim, mas não demorou para entendermos o porquê daquele dia ser justamente o mais difícil. Os obstáculos não eram tão grandes logo de cara, mas eram constantes. Já era nosso quinto dia, e não tardou para os músculos das pernas começarem a cansar. Descíamos lentamente (o grupo novamente desgarrou), e aos poucos os joelhos foram ficando bambos. Um pouco depois e já tínhamos que usar os braços para apoiar o corpo. A descida ficava mais íngreme, pois havíamos ultrapassado o paredão e entrávamos no trecho que levava até o segundo acampamento, e a trilha ficava definitivamente vertical. Os braços cansaram, e passamos a descer de bunda, literalmente. Nosso ritmo era cada vez mais lento, e a manhã ganhava ares dramáticos, quando finalmente chegamos.

A primeira parte tinha ficado pra trás. Ou pra cima.

A primeira parte tinha ficado pra trás. Ou pra cima.

Ao lado, a cachoeira do Kukenán lá longe.

Ao lado, a cachoeira do Kukenán lá longe.

Nisso todo o grupo já estava descansando e pronto para almoçar. Não tínhamos ideia de que horas eram. Ainda estávamos sem banho (naquele momento já eram dois dias desse martírio). Jogamos as mochilas no chão, pegamos um prato e comemos o que conseguimos, pouco antes de desabar no chão. Não se passaram dez minutos até ouvirmos o chamado do guia: “Vamos embora?”

Pegamos as mochilas e saímos antes de todo mundo, já sabendo que seríamos ultrapassados nos minutos seguintes – o que obviamente aconteceu. Com o passar do tempo, nos vimos (quase) isolados novamente (pois tínhamos a companhia do Christoph, um dos dois alemães do grupo, e que estava tão cansado quanto a gente), seguindo uma trilha que parecia ser a correta. Esse “parecer” começou a nos preocupar quando passamos a ter uma visão mais ampla do horizonte, confirmando que de fato não havia ninguém por perto. Acho que estávamos cansados demais para entrar em pânico, e seguimos adiante, confiando que chegaríamos ao nosso destino. O tempo se arrastava, e a impressão era de estarmos caminhando há horas. Meu maior medo era que chegássemos sem luz natural ao primeiro acampamento, e não pudéssemos tomar banho por mais um dia – coisa que já não dava mais pra tolerar.

Treze quilômetros de uma trilha não tão confiável (mais pra frente).

Treze quilômetros de uma trilha não tão confiável (mais pra frente).

Quando tudo parecia desgraçado, vimos alguém mais à frente. O coração acelerou. Era um dos guias, nos esperando para atravessar o primeiro dos dois rios que precisávamos cruzar. Não estávamos longe! Mas as pernas estavam esgotadas, e nosso medo de cair era gigante. Com todo o cuidado do mundo e com muta ajuda dele, atravessamos um a um até a outra margem. O Christoph resolveu ficar por ali mais um pouco para descansar, enquanto eu e a Dé seguimos desesperadamente para o primeiro rio. Queríamos chegar. Queríamos tomar banho. O ânimo ganhou sobrevida, e mesmo em frangalhos nos apressamos. O Ricky nos esperava no primeiro rio, e da boca dele veio nosso maior presente:

– Ricky! Que horas são?!?!?
– São 13h40.

SIM, ERA COMEÇO DA TARDE – AINDA!

A impressão era de fim de tarde, tal o nosso cansaço. Com a ajuda dele, atravessamos trôpegos e seguimos de meias encharcadas até o acampamento, que ficava pouco acima. Com exceção do Christoph e do canadense – que faziam parte do grupo, éramos novamente os últimos. Porém dessa vez, nada de mau humor. O grupo nos recebeu com uma alegria absurda, e a tarde era ensolarada e linda! Foi emocionante demais chegar ali, seguir até nossa barraca, arrancar a roupa e correr em direção ao rio!

Tomamos um banho que levou umas duas ou três horas, eu não sei precisar. Foi sem a menor sombra de dúvida – e debaixo de um sol delicioso – o melhor banho das nossas vidas.

Cheirosos, dignos e LIMPOS, voltamos ao acampamento. A Dé foi tirar um cochilo, eu fiquei com o grupo. Passamos a tarde conversando, ganhamos um queijinho (!) dos guias enquanto eles preparavam o jantar. O clima era leve, e não havia ser humano triste naquele lugar. Outros grupos estavam por ali – todos em seu primeiro dia de expedição. Alguns viajantes vieram pedir dicas e impressões da gente. A Dé apareceu, e agora estávamos todos do nosso grupo numa única mesa. Veio a comida (que era novamente macarrão – a gente não aguentava mais macarrão!), e pela última vez jantamos todos juntos. Assim que terminamos, o Ricky tomou a frente e preparou um agradecimento coletivo. Ressaltou o esforço de cada um, e novamente fomos… os últimos:

“Vocês dois… eu confesso que me enganei a respeito de vocês. Achei que os gordinhos (!) não iam conseguir, mas vocês estão aqui, e merecem os parabéns de todos nós!”

Meio fiodaputa, mas a gente aceitou o elogio.

Ainda mais porque em seguida os caras trouxeram duas garrafas de vinho (! de novo) pra todo mundo brindar o final daquele dia glorioso. O vinho era tão bom quanto o macarrão, mas e daí? Urubu na guerra é frango, meus amigos, e não ficou gota na garrafa. A ordem pro dia seguinte era que acordássemos mais ou menos cedo, tomássemos o café da manhã sem pressa e de lá seguíssemos calmamente até a base. Estava quase acabando, e fomos dormir com sentimento de missão cumprida…

…mas duvidando que nossos corpos (e pés) funcionariam na manhã seguinte.