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Cracóvia

Polônia

Arbeit macht frei (2/2)

23 de novembro de 2015

Ao contrário da ida para Auschwitz I, o caminho para Auschwitz II-Birkenau serviu pra gente descansar um pouco a cabeça e as pernas. Mesmo sendo uma distância curta, um pequeno intervalo era mais que necessário. Alguns minutos depois, estávamos no portão de entrada.

É bem difícil descrever esse novo impacto, uma vez que o tamanho do campo é totalmente discrepante de qualquer percepção que a gente possa ter por filmagens ou fotos. Em frente à entrada, olhando para ambos os lados, é impossível definir onde termina a área de Auschwitz II-Birkenau. Aguardamos nossa guia, e pouco depois estávamos entrando.

Em frente ao portão de entrada (e também a entrada dos trens, no período).

Em frente ao portão de entrada (e também a entrada dos trens, no período).

À esquerda, uma enormidade.

À esquerda, uma enormidade.

À direita, não enxerga-se onde termina.

À direita, não enxerga-se onde termina.

Uma tentativa fracassada de mostrar o todo.

Uma tentativa fracassada de mostrar o todo.

A vastidão era ainda maior. Andávamos em ritmo acelerado em meio aos trilhos, que naquela época traziam os trens então repletos de prisioneiros. Vários grupos de visitantes se espalhavam no local, e os olhos procuravam as referências tão conhecidas daquele verdadeiro matadouro. O cenário novamente era de um verde vivo e melancólico, com horizontes planos a perder de vista. A tarde era nublada, com uma leve chuva que ia e vinha. Novamente, parecia que o tempo acompanhava nossas emoções.

O espaço gigantesco dispersa a impressão de multidão, mas ela existia.

O espaço gigantesco dispersa a impressão de multidão, mas ela existia.

Pouco depois de entrar, era essa a visão de quem olhava pra trás...

Pouco depois de entrar, era essa a visão de quem olhava pra trás…

...e olhava novamente para a frente.

…e olhava novamente para a frente.

Paramos adiante próximos a um dos vagões, mantido no local. Dali em diante seguiram-se as explicações de como era feita a chegada dos prisioneiros, e sua ordem de execução: crianças, idosos e outras pessoas com capacidade física prejudicada eram os primeiros a serem enviados para a câmara de gás. A “solução final para o problema judeu” parecia ainda mais cruel quando imaginada em tais dimensões. Auschwitz II-Birkenau foi pensada para aliviar a capacidade do campo anterior, então excedente. Desmonte essa frase e pense no que exatamente ela quer dizer, e me diga se é possível ficar indiferente a tamanha atrocidade.

Um dos vagões, que traziam os prisioneiros...

Um dos vagões, que traziam os prisioneiros…

...e um pequeno memorial em seu degrau.

…e um pequeno memorial em seu degrau.

Seguimos adiante até chegar na área oposta à entrada do campo de concentração. Um memorial com placas em homenagem aos refugiados que estiveram em Auschwitz II-Birkenau – em seus respectivos idiomas, além de uma em inglês para a compreensão da mensagem por todos os visitantes.

“Para eternizar neste lugar um grito de desespero e uma advertência para a humanidade, onde os nazistas assassinaram cerca de um milhão e meio de homens, mulheres e crianças, judeus principalmente vindos de vários países da Europa.
Auschwitz-Birkenau 1940 – 1945”

As placas, em diversos idiomas.

As placas, em diversos idiomas.

Olhando novamente em direção à entrada, uma ideia da distância percorrida.

Olhando novamente em direção à entrada, uma ideia da distância percorrida.

Uma perspectiva real das distâncias da entrada (1), do vagão (2) e do memorial com as placas (3).

Uma perspectiva real das distâncias da entrada (1), do vagão (2) e do memorial com as placas (3).

Ali mesmo, fomos todos para o lado esquerdo. As ruínas que estavam logo abaixo eram aquilo que restou de uma das câmaras de gás, destruídas pelos próprios nazistas, que tentaram apagar as evidências da barbárie pouco antes da chegada do exército soviético – como se isso fosse possível. A proximidade de um local desses, mesmo tão descaracterizado, era tão perturbadora quanto a impressão que tivemos ao visitar a câmara de Auschwitz I.

Os escombros das câmaras de gás, totalmente...

Os escombros das câmaras de gás, totalmente…

...ou parcialmente descaracterizadas.

…ou parcialmente descaracterizadas.

Pouco adiante, entramos em um dos galpões de tijolos, cujo visual quebra a imensidão verde dos campos. Eram dois os tipos de galpão existentes em Auschwitz II-Birkenau: os de tijolos abrigavam às mulheres, enquanto os de madeira aos homens. E abrigar é uma forma muito educada de descrever o que de fato acontecia no interior desses galpões. O chão era de terra e lama, com higiene inexistente. Acumulava-se ali todo tipo de dejeto, enquanto os prisioneiros se amontoavam em verdadeiros cubículos. Um lugar onde caberiam no máximo 4 pessoas abrigava de 20 a 30. A impressão nas fotos não é distorcida: é inconcebível a possibilidade desse número absurdo conseguir sobreviver nessas condições – e era exatamente esse o desejo nazista.

De 20 a 30 mulheres eram amontoadas em cada uma dessas células.

De 20 a 30 mulheres eram amontoadas em cada uma dessas células.

Parece impossível, como toda e qualquer informação que tivemos nesse dia.

Parece impossível, como toda e qualquer informação que tivemos nesse dia.

No caso dos barracões onde eram alojados os homens, somente a base resistiu à queima de arquivo nazista. Sendo de madeira, foram incendiados antes da chegada dos soviéticos, restando a fundação como memória dos espaços. Estávamos quase no final do tour, enquanto caminhávamos entre os outros galpões.

Enquanto os barracões femininos permanecem preservados...

Enquanto os barracões femininos permanecem preservados…

...pouco restou dos masculinos.

…pouco restou dos masculinos.

Já próximos ao portão de entrada novamente, nossa guia agradeceu a todos pela presença, contou sobre sua própria preparação para aquele trabalho, e que se esforçava ao máximo para relatar os acontecimentos de forma mais precisa, detalhada e respeitosa a todos, de forma que as lições daquele dia nunca mais se perdessem.

Nossa conclusão sobre a experiência em Auschwitz é aquela que tínhamos como expectativa antes de pensar o destino de nossa viagem: algo transformador, em muitos aspectos. Doloroso, complexo, absurdo de tão distante da nossa realidade. Mas nesses tempos em que a intolerância brota inadvertidamente dos lugares mais inesperados, o aviso expresso na placa em homenagem aos que lá estiveram nos parece cada vez mais necessário. Sentir na pele um lugar tão importante na História da humanidade nos devastou, a ponto de voltarmos para Cracóvia em silênco e mentalmente exaustos. Dali em diante, vivemos e revivemos aqueles momentos a cada informação já conhecida ou ainda não sobre os horrores da Segunda Guerra – e todas as outras, relativas ou diretamente ligadas a atitudes absurdas promovidas pelo ser humano. Recomendamos sim a visita aos campos. Aprender sobre nossa essência, e sobre o que somos capazes de fazer quando nossa vida é movida pelo ódio e pelo preconceito é uma lição da qual jamais esqueceremos.

Polônia

Arbeit macht frei (1/2)

19 de novembro de 2015

Visitar Auschwitz foi possivelmente a experiência mais marcante da minha vida.

Em um texto anterior, expliquei minha fascinação por assuntos de guerra, seus memoriais e como isso me emociona. Há algum tempo estou ensaiando pra escrever esse texto, uma vez que – imagino – nenhum tipo de explicação seja capaz de quantificar o impacto que estar num campo de concentração, num presídio ou ruína causa na gente. Então cheguei à conclusão de que, ao invés de descrever como foi o dia de visita, melhor contar desordenadamente como um único dia foi capaz de mudar minha cabeça pra sempre. Não será a última vez que falaremos de Auschwitz por aqui (futuramente a Dé contará a história dela, da forma que quiser), e explico isso por fazer questão que esse relato seja algo totalmente meu, mesmo.

Ao adquirir o tour para Auschwitz, você visita dois locais: Auschwitz I durante a manhã (os famosos prédios de tijolos, construídos para servirem de alojamento à artilharia nazista, e que posteriormente foram transformados em campos de concentração), e Auschwitz II-Birkenau à tarde (o campo de extermínio, onde os trens desembarcavam os judeus para execução). Auschwitz não é Auschwitz, mas sim a pequena cidade de Oświęcim, rebatizada durante o domínio alemão com o famoso nome. Nosso tour saía da Cracóvia, e a distância de aproximadamente 70 km serviu para preparar o grupo para o que viria a seguir. Na própria van, o documentário Die Befreiung von Auschwitz (A Libertação de Auschwitz) foi assistido em silêncio sepucral durante uma hora. Devo ter chorado umas 3 ou 4 vezes, e não fui o único. Trata-se do registro cinematográfico oficial feito pelos soviéticos quando da libertação dos campos, e as imagens são EXTREMAMENTE fortes. O vídeo completo (com narração em inglês, assim como assistimos) está disponível logo abaixo. As cenas são fortíssimas, e não recomendadas a estômagos mais sensíveis.

A chegada ao campo já traz esse desconforto, e dali em diante uma guia e sua acompanhante – funcionária designada pelo próprio Museu de Auschwitz, com a função de evitar qualquer distorção aos fatos reais – acompanham o grupo. As explicações são feitas por meio de rádio, e são distribuídos fones e decodificadores aos visitantes. Com isso, mesmo com a verdadeira multidão presente (e distribuída em diversos e esparsos grupos), o silêncio impera quando se passar pelo portão principal. Passar pelo letreiro Arbeit macht frei (“o trabalho liberta”) tem o impacto de ser pisoteado por um gigante. As costas pesam. Mesmo sendo um lugar tão conhecido, é impossível ficar indiferente e não imaginar o que de fato aconteceu com as pessoas que pisaram naquele mesmo chão um dia. As imagens em preto e branco dão espaço a uma realidade de cores terrosas e muito bonitas – pode parecer absurdo dizer isso, mas sim: Auschwitz I é um lugar belíssimo (não esquecendo que antes de se tornar o que se tornou, seus prédios eram um alojamento). Todo o cuidado e estrutura de hoje obviamente contrastam com o estado das instalações no período em que foram utilizadas.

O título deste texto é a maior mentira já contada na História da humanindade

O título deste texto é a maior mentira já contada na História da humanindade

A beleza mórbida e pesada de Auschwitz I.

A beleza mórbida e pesada de Auschwitz I.

Os passos são lentos entre as alamedas, agora livres dos cercados da época (porém, alguns corredores permanecem intactos, cercados por arame farpado e totalmente claustrofóbicos). Grande parte dos edifícios é aberta à visitação, abrigando o museu que dá nome ao complexo: fotos dos prisioneiros, mapas estatísticos, uniformes, objetos pessoais, manchetes de jornal, infográficos, maquetes e estátuas ocupam seus interiores. Numa determinada área, uma simulação de fluxo de prisioneiros até a morte nas câmaras de gás, e uma lata de Zyklon-B (pesticida à base de cianureto, “a grande descoberta dos nazistas para extermínio de massa a baixo custo, uma vez que os fuzilamentos eram demorados e caros, dada a quantidade de balas gasta pelo exército nazista“).

Os corredores cercados.

Os corredores cercados.

Alguns dos uniformes utilizados pelos prisioneiros.

Alguns dos uniformes utilizados pelos prisioneiros.

O Zyklon-B, explicado e exibido.

O Zyklon-B, explicado e exibido.

Uma das áreas mais impressionantes era sem dúvida a adaptação do espaço interno em um prédio, onde acumulavam-se os pertences pessoais dos prisioneiros. Com a promessa de trabalho no local, os judeus chegavam carregando em mãos aquilo que podiam. Após sua chegada, tudo lhes era tirado (ou melhor, roubado) pelo exército nazista, separado e guardado. Malas, sapatos, próteses, pincéis de barba, aparelhos de barbear, xícaras e até mesmo urinóis estão expostos em vitrines enormes.

Mas nada é mais chocante do que uma das vitrines, onde está acumulado todo o cabelo raspado das mulheres mortas nas câmaras de gás. Os nazistas utilizavam esse cabelo para a fabricação de sacos. Confesso que nesse momento me sinto nauseado tentando descrever essa cena, da qual não temos registro fotográfico (por proibição explícita na sala). Mas faz-se necessário o registro, e ele existe – na internet, efetuado por pessoas que desrespeitaram esse aviso. Não destacaríamos esse tipo de desrespeito aos regimentos internos de qualquer lugar, mas provar sua existência é necessário – pois é racionalmente inconcebível acreditar que um dia isso aconteceu.

Imensas vitrines com pertences roubados pelo exército nazista, e acumulados em verdadeiras pirâmides.

Imensas vitrines com pertences roubados pelo exército nazista, e acumulados em verdadeiras pirâmides.

Os sapatos, num ângulo cuja perspectiva da quantidade é muito mais evidente.

Os sapatos, num ângulo cuja perspectiva da quantidade é muito mais evidente.

E a inacreditável quantidade de cabelos, raspados após a morte das mulheres na câmara de gás. Deviam ter um comprimento mínimo, para que pudessem ser utilizados na confecção de sacos. Uma imagem surreal.

E a inacreditável quantidade de cabelos, raspados após a morte das mulheres na câmara de gás. Deviam ter um comprimento mínimo, para que pudessem ser utilizados na confecção de sacos. Uma imagem surreal.

Dentro dos prédios, fotos são proibidas na maioria das áreas – possivelmente para facilitar a fluidez no fluxo dos diversos grupos de visitantes. Quando permitidas, somente sem flash. O tempo para as mesmas é bastante reduzido – porém, é possível fazê-las sem correria e com qualidade. A maioria dos ítens de época são preservados em cabines de vidro, enquanto diversos painéis detalham todo tipo de informação pertinente. A comunicação interna é feita de forma sóbria, direta e extremamente didática, não deixando margem para interpretações erradas sobre o que está relatado.

Em algumas áreas, salas inteiras permanecem preservadas e/ou restauradas. Alojamentos dos prisioneiros, algumas salas onde operava o comando do exército nazista, e no subsolo que pudemos visitar, celas tão minúsculas que os prisioneiros encarcerados tinham sua musculatura forçada ao extremo quando “encaixados” naqueles cubículos, com morte certa em um curto período de tempo. Mesmo com as explicações cuidadosas da guia, o cenário era desolador e cada vez mais inacreditável.

O local onde as mulheres tiravam suas roupas. De lá, eram conduzidas em pares até a área externa, onde eram executadas.

O local onde as mulheres tiravam suas roupas. De lá, eram conduzidas em pares até a área externa, onde eram executadas.

Um dos dormitórios (na parede, a foto com os prisioneiros).

Um dos dormitórios (na parede, a foto com os prisioneiros).

Sobre as explicações dadas durante o tour, vale um adendo: o cuidado e a delicadeza em tratar o assunto sem ofender este ou aquele povo é notável. Em nenhum momento mistura-se o povo alemão à mentalidade presente no comando nazista, e seu maior expoente – cuja nacionalidade, não esqueçamos, é austríaca. Parece pouco, mas separar muito bem as coisas é um dever histórico dos mais importantes.

Viajar no tempo é um exercício constante durante o tour, e se colocar no lugar daquelas pessoas é inevitável. Não há um minuto em que sua cabeça não esteja funcionando sob um prisma de um prisioneiro – ou de um nazista. Sim, é hipocrisia dizer que a gente só se coloca no papel do massacrado, quando o maior desafio é tentar entender a cabeça de quem massacra. Por isso mesmo, você acaba por diversas vezes tentando entender o personagem, mesmo sem querer. Absurdo dizer isso? Desumano? Não amigos… eu garanto: o desgaste mental ao final do dia tem muito a ver com esse exercício involuntário, de tentar compreender o incompreensível.

Um detalhe da sinalização dos blocos.

Um detalhe da sinalização dos blocos.

Dé, o nosso grupo e os rádios onde recebíamos as informações da guia (na imagem, de bolsa vermelha).

Dé, o nosso grupo e os rádios onde recebíamos as informações da guia (na imagem, de bolsa vermelha).

E mesmo em momentos onde aparentemente o lugar não parece algo tão terrível...

E mesmo em momentos onde aparentemente o lugar não parece algo tão terrível…

...bastam apenas alguns passos para voltarmos à realidade.

…bastam apenas alguns passos para voltarmos à realidade.

Dos momentos mais pesados que tivemos lá dentro, destaco três:

– Uma área entre dois prédios, onde encontra-se o muro de fuzilamento. O espaço tornou-se um pequeno memorial, que estava cercado de flores. No alto, atrás da parede de tijolos que une os blocos 10 e 11, uma bandeira que faz alusão aos uniformes dos prisioneiros – com listras azuis e um triângulo vermelho invertido.

A lembrança dos prisioneiros.

A lembrança dos prisioneiros.

E sua terrível sentença final.

E sua terrível sentença final.

– A forca onde Rudolf Höss – comandante do campo de concentração – foi executado. Quase no fim do tour da manhã, poderia ser um fechamento “positivo” para tanta desgraça relatada durante a manhã (na minha cabeça e pelos meus valores, não existe nazista que mereça perdão – e eu posso dizer isso de consciência muito tranquila).

O último ato de Rudolf Höss.

O último ato de Rudolf Höss.

– Visitamos uma câmara de gás, por dentro. Entrar naquele pequeno galpão foi uma das sensações mais sufocantes e dolorosas de todo o dia (e posso dizer, da minha vida). São poucos segundos de escuridão, interrompida por lâmpadas amareladas e pequenos feixes de luz vindos dos buracos do teto, onde era despejado o Zyklon-B. Marcas na parede, silêncio, até sua respiração parece ecoar enquanto você absorve uma das maiores crueldades pensadas pelo ser humano. Sair de lá, olhar pra trás e imaginar o que aquele lugar – hoje inofensivo – já foi um dia é tão, mas tão pesado e terrível, que é impossível não sair rasgado de dentro pra fora.

Dois minutos bastaram, no lugar mais terrível que já visitei na vida.

Dois minutos bastaram, no lugar mais terrível que já visitei na vida.

A parte de dentro: marcas nas paredes, calafrios, vontade de chorar, horror... é impossível definir o que se sente ali dentro.

A parte de dentro: marcas nas paredes, calafrios, vontade de chorar, horror… é impossível definir o que se sente por ali.

Obviamente foi o último ponto antes do período do “descanso” entre os dois tours, pois não há emocional que resista. Todo mundo precisa dessa pausa, para voltar à própria realidade, almoçar/lanchar e se recuperar um pouco para a segunda parte do dia. Comemos alguma coisa, voltamos para a van e esperamos o grupo se reunir. O dia estava cinzento, com ameaça de chuva leve. Eu acredito que até mesmo o clima reforçava as sensações daquela visita.

Contarei sobre Auschwitz II-Birkenau no próximo texto.

Polônia

Meu caso de amor
com um corneteiro polonês

12 de Março de 2015

Por Juliana Eliezer


Cracóvia, ao que parece, não é um destino popular entre brasileiros. Digo isso sem preconceito algum, e não sei explicar por que. Segundo minhas impressões, se você não passa por Varsóvia, fica mais difícil chegar e sair da antiga capital polonesa. De Praga, tomei um trem até a fronteira e, a partir de lá, uma van, conduzida por estradas surpreendentemente conservadas e bem sinalizadas, e que me deixou no meu hotel pouco depois das onze e meia de uma noite gelada do final de outubro.

Sou ansiosa, não gosto de esperar: depois do banho e de vestir roupas limpas, desci os degraus desbeiçados do meu hotel, que ficava num prédio de apartamentos tão velho que parecia que iria cair na minha cabeça a qualquer momento, mas que estava na cara do gol para se acessar Stare Miasto, a cidade velha, e meti as caras, acreditando nos relatos dos viajantes que diziam ser Cracóvia super segura para turistas estreantes.

Minutos depois, meu primeiro contato com Rynek Glowny, a maior praça medieval da Europa, envolta numa camada de névoa espessa, que tornava fantasmagórica a iluminação do prédio que eles chamam de Sukiennice, e eu chamarei de mercado central.

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Parentesis: nem se preocupem com a pronúncia desses nomes todos… para vocês terem uma ideia, Cracóvia em polonês se escreve Kraków e se pronuncia “crrrácúfff”, ou algo assim… inútil, portanto, a preocupação com tais preciosismos. Fecha parentesis.

Rynek Glowny levou exatos três segundos para roubar meu coração. Gigantesca, cheia de detalhes e de contrastes – uma igreja do século 10 a poucos passos de um Hard Rock Cafe – estava ali ela, quase envelopada na bruma, de um jeito que fazia com que eu tivesse a impressão que podia pegar o ar com os meus dedos. Quase não havia luzes acesas nas casas que a ladeavam, restaurantes e hoteis em sua maioria, emprestando à praça um curioso aspecto fantasmagórico e nada assustador ao mesmo tempo. Acreditem vocês também: é seguro de fato, mesmo à meia noite e meia de um dia de semana. O máximo que pode acontecer é o turista ser abordado por um dos montes de promotores que entregam panfletos dos bares e restaurantes nas imediações, ou mesmo pelo Freddy Krueger que anda por ali fazendo propaganda da Lost Souls Alley, atração de terror que fica logo ali, na Ulica Florianska.

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Dadas as muitas horas de viagem que eu carregava no lombo naquele momento, somadas à fome que eu estava, meu primeiro exame de Rynek Glowny foi um pouco precário, consistindo apenas em uma volta e meia, para depois tomar o caminho do McDonald’s mais próximo (só porque eu ainda não conhecia o restaurante 24 horas que só vende pierogis, os maravilhosos dumplings recheados que provavelmente são a melhor coisa que já comi na vida). Na volta, apenas uma pequena olhada, dessa vez mais de perto, no prédio do Mercado, que descansava ali no meio do largo. Faltavam dois minutos para a uma da manhã, e eu precisava de sono, muito sono.

Ao caminhar em direção ao hotel, por uma das saídas da praça – aquela que passa pela lateral da Bazylika Mariacka, ou Basílica de Santa Maria, famosa pela assimetria de suas duas torres frontais. Andava com meus passinhos rápidos de garota baixinha, quando me vi subitamente detida: o que eu estava ouvindo era um toque de clarim, ou de algum instrumento de sopro que se assemelhasse.

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A música continuou, sem que eu conseguisse identificar de onde vinha. Aliás, ela parecia mudar de lugar conforme se desenvolvia. Fiquei ali parada, olhando para os lados, para cima, para baixo, perdida, meio atordoada. Os toques eram altos, tinham um quê de lamento e pareciam vir de todo canto. Estática, na lateral semi vazia da praça, com a névoa granulando a noite e aquele som misterioso, acho que senti-me numa cena de filme impressionista.

De repente, parou. Sim, a música parou, como se tivesse ficado pela metade. Como se alguém tivesse puxado a vitrola da tomada. Hoje, me arrependo de não ter tirado uma selfie da minha cara de ponto de interrogação (só vim a conhecer o pau de selfie muitos dias mais tarde, em Roma). O que tinha sido aquilo? “Toca mais“, quase gritei, rindo sozinha da minha vontade boba de mandar o corneteiro misterioso tocar Raul. Uns minutos depois, quando me convenci de que ninguém retomaria a música de onde ela havia parado, voltei para o hotel, prometendo a mim mesma que me seguraria para não googlar o incidente, e ver se no tour guiado do dia seguinte eu descobriria alguma coisa.

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Vejam só, essa viagem me tornou uma viciada em tours guiados, tanto aqueles previamente pagos quanto os outros, nos quais você oferece ao guia o tanto de grana que achar que o tour valeu. O de Cracóvia pertencia a este último tipo, e tive a sorte de ser ciceroneada por um rapaz chamado Tomek, que além de falar inglês muito melhor que eu, sabia tudo sobre todas as histórias bizarras, curiosas e lindas da Stare Miasto. E foi por ele que fiquei sabendo qual era a do corneteiro misterioso…

Depois de darmos uma volta pela Cidade Velha, Tomek levou o grupo para a frente da Basílica, às duas horas da tarde, em ponto. Mandou que todo mundo olhasse pra cima, em direção à torre mais alta. Obedecemos. Uns instantes depois, vemos uma janela se abrir, lá em cima, num ponto muito alto para que se tirasse uma foto que prestasse sem o uso de teleobjetiva. Usando meus pobres óculos, contudo, consegui ver o clarim sendo posto para o lado de fora da janela, e então ouvi o som que se seguiu. Era a mesma música lúgubre da noite anterior, e o corneteiro revezava as janelas, se locomovendo pelo lado de dentro da torre. Ate que, no mesmíssimo ponto, parou. Colocou a mão para fora, acenou e fechou a janela na nossa cara. Fim do mistério.

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Tomek contou que, lá pelos idos de mil, duzentos e alguma coisa, o sentinela que tomava conta da cidade avistou, ao longe, uma cambada de invasores tártaros, que ao que parece planejavam tomar Cracóvia. Acordou todo mundo bem na hora H com o toque do seu instrumento, e a cidade conseguiu se livrar dos inimigos. Tristemente, o corneteiro-heroi não viveu para comemorar a vitória: enquanto tocava, foi atingido por uma flecha bem no pescoço, parando a música pelo meio. E aí que, de hora em hora, hoje, após as badaladas do campanário da Basílica, um funcionário público faz as vezes de corneteiro-heroi, reproduzindo a canção até o momento em que ela foi interrompida. Ou assim diz a lenda. É ou não é para se apaixonar?

Cidades importantes são cheias de crônicas e contos próprios. São verdadeiros repositórios. Em Cracóvia, o real se mistura ao imaginário, o sublime ao sangrento, o real ao popular, num caldeirão fumegante (fui falar de caldeirão, lembrei de novo dos pierogis) que encanta qualquer um. Tem corneteiro, tem dragão, tem papa. Tem rei, tem igreja de torres diferentes. Tem amor, tem guerra. Essa que contei foi apenas uma das histórias que tornou Cracóvia o meu destino favorito na Europa, até agora. Todas as outras são, porém, igualmente apaixonantes, e a gente pode aprender indo lá e escutando-as de um guia, ou sonhando que está lá e digitando alguns caracteres no Google. Recomendo a primeira maneira, para fazer asap, assim que a oportunidade surgir. Sim, acho que posso dizer, com segurança e por promíscuo que pareça, que meu caso de amor não foi só com o corneteiro-heroi, mas sim com toda a Cracóvia.


Se você quiser participar das publicações do Faniquito com suas histórias, curiosidades e dicas de viagem (e não importa o destino), é só entrar em contato com a gente por esse link. Todo o material deve ser autoral, e será creditado em nosso site.

Polônia

Tempero polonês

26 de Janeiro de 2015

Auschwitz e João Paulo II: são os dois expoentes que destacam mundialmente a Cracóvia. Obviamente a cidade polonesa possui outros pontos e características marcantes, mas são essas duas memórias que comumente ocorrem ao falarmos dela.

Com um pouquinho mais de pesquisa, descobrimos um terceiro. E é dele que falaremos hoje, uma vez que quando por lá, é também um destino comum aos visitantes (mesmo não ficando exatamente na Cracóvia, mas sim em seus arredores): a mina de sal de Wieliczka (Kopalnia soli Wieliczka). Quando a gente fala “mina de sal”, esqueça aquela imagem de calor subterrâneo e absoluta escuridão. O lugar é realmente incrível.

Adquire-se esse passeio de uma forma bem simples: por flyers informativos na recepção dos principais hotéis (os próprios hotéis fazem seu agendamento quando solicitados), ou por oferta no centro histórico de Cracóvia – existem várias equipes que abordam o turista em seu passeio pela cidade. Compramos o nosso pela Seek Krakow (que possibilita inclusive o agendamento pelo próprio site – http://www.seekrakow.com/), aparentemente a maior das companhias de lá. O preço foi um pouco mais alto – soubemos depois, passeando pelo centro – mas o tour foi excelente e não temos queixas. Definida a data, o transfer passa no seu hotel/albergue/ponto, recolhe o grupo e segue até Wieliczka.

O ticket de entrada para a mina - do lado direito, o verso com um adesivo colado (esse adesivo é a autorização para fotos e vídeos, que você só compra durante o passeio, lá dentro mesmo).

O ticket de entrada para a mina – do lado direito, o verso com um adesivo colado (esse adesivo é a autorização para fotos e vídeos, que você só compra durante o passeio, lá dentro mesmo).

Chegando lá, o grupo recebe seu aparelhinho de áudio, para acompanhar tudo o que o guia diz sem gritaria. Mas por ser numa mina, é bom manter pouca distância do sujeito, pois o raio de alcance não é dos maiores. Com o canal correto sintonizado, é hora de descer.

O aparelhinho para acompanhar o áudio do guia.

O aparelhinho para acompanhar o áudio do guia.

As escadas que te levam ao interior da mina são sim um desafio razoável. São 378 degraus para baixo… portanto, prepare bem suas articulações, pois chegando lá embaixo são umas 4 ou 5 horas de caminhada. Aos que têm algum problema de joelho, é possível descer de elevador. O passeio é bem tranquilo – apesar das distâncias razoavelmente grandes, os túneis são bem extensos. O guia que nos acompanhou é possivelmente um dos poloneses mais simpáticos do mundo, e com um inglês excelente, apesar do sotaque.

A descida é longa.

A descida é longa.

Chegando lá embaixo, o tour começa – e eu não vou estragar a surpresa esmiuçando os detalhes. Mas posso dizer que há uma apresentação geral e histórica da mina, o relato de lendas que envolvem o local, alguns fatos sobre os mineiros que lá trabalhavam, um tour infantil (e temático, que lamentamos não ver, pois a molecada entra fantasiada) e mais um bom punhado de histórias. Das coisas bacanas que merecem o registro, há uma curiosidade genial sobre o funcionamento do fluxo de ar nos túneis – as áreas são separadas por enormes corredores, e cercadas por portas gigantes. Uma porta só pode ser aberta quando a outra é fechada, justamente pelo fato do fluxo de ar precisar ser interrompido. Se ele não for, a porta seguinte é empurrada e se torna praticamente impossível de ser aberta.

Caminhando contra o vento.

Caminhando contra o vento.

Outra coisa legal é a idade de cada pedaço das paredes, e a coloração do sal (branco quando novo, e preto quando muito antigo). O interior da mina é adornado por dezenas de estátuas e imagens esculpidas por artistas locais – obviamente, todas em sal. Existem áreas em que ocorrem festas, espetáculos e até concertos: a acústica dentro da mina é excelente, e demonstrada na exibição de um fragmento de peça de Fryderyk Chopin (outro polonês famoso, afinal de contas) em uma das salas. No nosso caso, a música executada foi essa aqui. Bonidimais.

Nosso guia, explicando as diferenças de cor do sal.

Nosso guia, explicando as diferenças nas cores do sal.

Uma das várias esculturas em sal. Coisa mais linda.

Uma das várias esculturas em sal. Coisa mais linda.

Porém, são dois os pontos altos do passeio: um, e mais famoso, é a Capela de Santa Cunegunda (Święta Kinga) – a santa padroeira polonesa. Localizada no coração da mina, a capela é enorme, e TODA feita em sal – das imagens ao altar, passando por bancos, piso trabalhado, e enormes e incríveis lustres, cujas pedras são – advinhem – feitas em sal também. Obviamente que há uma bela estátua de João Paulo II por lá, igualmente detalhada e bonita.

Na capela, o visual é impressionante.

Na capela, o visual é impressionante.

Um detalhe do lustre, e suas pedrinhas.

Um detalhe do lustre, e suas pedrinhas.

A bênção do Papa.

A bênção do Papa.

O outro é um light painting (aquela projeção de luzes que parece desmontar, remontar ou dar vida a determinadas coisas) feita quase no final do passeio, em uma sala gigantesca que mais parece um cinema. Tanto o som como as imagens são coisa quase inacreditável. E (in)felizmente não temos registros desse local – e mesmo procurando no Youtube, não achei nada que mostre essa parte do passeio.

O que me parece um sinal: vá conhecer pessoalmente, porque vale muito a pena! 🙂