Causos, Faniquito

Janela ou corredor?

3 de maio de 2016

– Vocês já conhecem a cidade?
– Não, é nossa primeira vez.
– Então troquem de lugar comigo.

E dessa maneira ganhamos a janela de presente na chegada ao Aeroporto Internacional Malvinas Argentinas. Janela. Um lugar onde eu me acostumei a não sentar desde que casei, por puro e simples cavalheirismo. É de lá que a Dé tira as primeiras fotos de qualquer viagem que a gente faça, e as últimas também. Fotos essas que não costumam figurar em nossos álbuns com grande destaque: reflexos, sujeira, falta de foco e mais um punhado de péssimas condições que não fazem desses registros motivo de orgulho.

Se algum morador ou conhecedor da cidade/destino te oferecer a janelinha...

Se algum morador ou conhecedor da cidade/destino te oferecer a janelinha…

...aceite sem pestanejar.

…aceite sem pestanejar.

Mas é da janela que o gatilho é apertado. Quando o avião acelera na pista, sabemos que começou. A imagem de deixar para trás por alguns instantes tudo e todos que conhecemos para mergulhar numa nova realidade é um dos significados mais verdadeiros do faniquito. Quem está no corredor olha pro lado. Quem está na janela volta a ter 8 anos e passa a procurar predinhos, identificar carrinhos, pessoinhas e tudo o que ficou lá embaixo enquanto o avião decola.

É da janela que a gente enxerga o horizonte ficar levemente torto. Entende a geografia dos rios. Reencontra cartões postais. Se diverte na fofura inacreditável e infinita das nuvens. Deixa para trás chuva e neblina, enquanto mergulha num azul perfeito. E é dela também que temos as primeiras e distantes impressões de nosso destino, quando ele deixa de ser vontade pra se tornar realidade.

De zero a dez, sua vontade de rolar em cima dessas nuvens é...

De zero a dez, sua vontade de rolar em cima dessas nuvens é…

A janela do avião é a moldura desajeitada de muitas imagens que quase sempre guardamos pra gente, e pra mais ninguém. Impressões lindas como a chegada àquele primeiro aeroporto citado no início desse texto, a saída assustadora de um corredor de prédios quando decolamos de Congonhas, o tapa na cara que é a chegada ou a saída do Santos Dumont – possivelmente um dos visuais mais avassaladores do mundo, sem exageros.

A bela.

A bela.

A fera.

A fera.

E mesmo quando dela nada se vê, com exceção das luzes da cidade que se aproxima, o ar automaticamente se renova e, por alguns instantes, é possível deixar pra trás tudo o que até aquele momento pesava nas costas. Novos dias num novo lugar – inédito ou não, que não faz parte da sua rotina, e por consequência ainda tem aquele sabor de presente de Natal.

É a única janela da qual vale a pena ver o mundo. Mas não por acaso, quando as portas são abertas, a vontade de conhecer o que está lá fora ultrapassa qualquer belo horizonte – registrado ou não – que possa ser vislumbrado por aquele quadradinho (que nem é tão quadrado assim).

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