Áustria, Gastronomia

Porquinho dourado

25 de agosto de 2015

Gastávamos a sola em Viena. A cidade convida a bons e longos passeios, e o metrô é de uma abrangência absurda. Ainda não havíamos chegado na metade da nossa viagem, e na Áustria experimentávamos várias novidades: o primeiro país que utilizava o Euro até então – havíamos passado por Romênia (Leu), Polônia (Złoty) e República Tcheca (Koruna), nosso primeiro país a não fazer parte do bloco do Leste, e também um de nossos destinos mais aguardados, uma vez que reza a lenda que Viena é uma das cidades mais bonitas do mundo – e do mundo que conhecemos até o momento, essa lenda faz bastante sentido.

Era um dia de sol, com céu aberto e azul na capital austríaca, e havíamos passado toda a manhã e o começo da tarde visitando o Schönbrunn Palace (mais comumente conhecido como o Palácio da Sissi, do qual falaremos futuramente por aqui). Um passeio que, quando feito de forma tranquila e sem correria, leva mais de quatro horas sem o menor exagero: não somente dentro do palácio, mas principalmente por seu jardim, que é gigantesco e repleto de outras atrações. Depois de acumular uma boa quilometragem dentro daquela área enorme, uma coisa ficou muito clara pra gente: estávamos azuis – de fome. Logicamente haviam algumas opções lá dentro, mas tínhamos outros planos para nossos Euros.

Só pra dar uma ideia do quanto andamos pela manhã, e quantificar nossa fome visigoda. Contamos mais sobre esse lugar num futuro próximo, e com o devido carinho!

Só pra dar uma ideia do quanto andamos pela manhã, e quantificar nossa fome visigoda. Contamos mais sobre esse lugar num futuro próximo, e com o devido carinho!

Dos nossos desejos culinários daquele canto do mundo, já havíamos encarado o kebab, o eisbein, a salsicha, o apfelstrudel e trocentas cervejas. Era hora de encarar o wiener schnitzel – a milanesa de porco, bem fininha, e que vem acompanhada de um limãozinho em cima faz parte de 9 de cada 10 cardápios que havíamos pedido até então por aqueles lados (compequenas variações de acompanhamentos). Por ser um prato típico da região, nada mais justo do que caçar uma referência na cidade. E lá fomos nós, gastar mais uma solinha de sapato.

Já de volta à região central da cidade, andamos um pouquinho até encontrar uma viela que passa desapercebida a qualquer pessoa de passo mais apressado. Notamos as paredes verdes, e a plaquinha que estávamos à procura: Figlmüller | Seit 1905. Nossa fome era inversamente proporcional ao tamanho do restaurante – um, de seus dois endereços. Olhando pela janela, diversos velhinhos e pessoas razoavelmente bem vestidas (estávamos em Viena, e se a gente já tem esse jeitinho mulambo de se vestir aqui mesmo no Brasil, o que dizer de nossos modelitos de viagem, ainda mais depois de passar uma manhã inteira caminhando?).

A entrada da vielinha (ao fundo, à direita da foto)...

A entrada da vielinha (ao fundo, à direita da foto)…

...e num ângulo invertido, as mesmas paredes verdes da foto anterior (mas agora, numa foto nossa).

…e num ângulo invertido, as mesmas paredes verdes da foto anterior (mas agora, numa foto nossa).

Com certa reticência – que era menor que nosso desejo de experimentar o schnitzel – nos arriscamos com o garçom, que nos levou a uma das poucas mesas disponíveis no restaurante. O espaço apertado no fundo da casa ao menos era exclusivo – outras mesas, mesmo que de quatro pessoas, eram divididas por pessoas que nem sempre faziam parte do mesmo grupo – e isso aparentemente não incomodava ninguém.

A destreza dos garçons – inclusive anotando os pedidos – passava aquela impressão de se estar num lugar em que todo mundo sabe o que faz – e faz bem. Senhores “com cara de austríaco” passavam de lá pra cá, se desviando nos pequenos espaços para circulação naquela casinha. Quando chamamos, obviamente tanto eu como a Dé pedimos o tão famoso schnitzel. Na hora das bebidas, uma curiosidade: nada de refrigerante no cardápio. Eu me arrisquei com um troço que, se não me engano, era uma tônica/água/coisa com limão – que era horrorosa, enquanto a Dé pediu um suco de uva. Mas danem-se as bebidas.

Quando a propaganda faz jus à experiência, e se basta em uma imagem.

Quando a propaganda faz jus à experiência, e se basta em uma imagem.

O prato é um exagero. Ou melhor, vamos refazer essa frase: o prato é menor que o schnitzel. Você pede um acompanhamento (na foto, temos uma porçãozinha de batata), e traça uma estratégia pra conseguir comer o discão de carne. A milanesa sequinha e o limão entregam toda a expectativa que você tem quando experimenta um prato tradicional de um restaurante tradicional. Não é por falta de méritos que a casa existe há 110 anos, pois a milanesa é realmente uma experiência pra se levar nas melhores lembranças. Olhando em volta, é quase uma unanimidade, sendo poucas as pessoas que se arriscam em outro prato – mais ou menos aquela situação da pessoa que vai numa churrascaria pra comer salada.

Nossa visita ao Figlmüller não rendeu fotos ou vídeos caprichados, infelizmente – estávamos preocupados demais com o sabor do porquinho, e nossos registros foram de fato deficientes. Pra compensar essa falha, resolvi publicar um vídeo que encontrei nesse oásis chamado Youtube, que mostra a cozinha e o preparo do schnitzel no Figlmüller. Pra quem entende alemão, aceito a tradução das informações. Aos leigos (como eu), vale o registro da preparação da milanesa da foto a partir dos 4:30 (o vídeo é bom inteiro, então assistam sem pular). E caso aceitem o desafio, façam isso com fome. É espetacular.

*Nossa publicação de hoje tem motivos culinários por celebrar a marca superior a MIL SEGUIDORES, obtida ontem à noite com um incentivo mais que especial do Receitando Gastronomia, que vem nos dando uma força daquelas há alguns meses. Nossa forma de agradecimento põe na mesa comida e passaporte – essa combinação mais que perfeita, e que de apetite inesgotável 🙂

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