Estive lá, Turquia

Sobre tolerância e respeito

13 de outubro de 2015

Todos estamos acompanhando entristecidos e horrorizados (ao menos, assim espero) o que acontece na Síria de forma mais acentuada neste momento. E nesse verdadeiro êxodo, algumas reflexões precisam ser feitas por todos nós de uma forma BEM urgente. Deixamos aqui nossa breve contribuição.

Mas isso aqui não é um site sobre viagens?
– Amigo, apenas leia. E REFLITA.

Há uma verdadeira mobilização na Europa quanto ao papel do imigrante e seu lugar numa situação dessas: a recepção que os sírios vêm recebendo de países e governos vizinhos pode ter diversos significados, que vão da prometida paz ao preconceito descarado. O chute que aquela cinegrafista húngara deu no pai que carregava o filho nos ombros diz muito sobre que tipo de ser humano somos capazes de nos tornar, mas não pode refletir o caráter de um povo, muito menos estigmatizá-lo.

Nisso surge o Brasil em diversas reportagens, que exaltam “nossa capacidade de receber a todo tipo de imigrante de braços abertos”. Bem, sabemos que a coisa não é bem assim. Enquanto paulista, sei bem o quão torto olhamos para os coreanos, africanos, argelinos, turcos e árabes – povos que possuem comunidades gigantescas, e que por vezes dominam alguns bairros da cidade. Bem como o quanto o termo “japonês” na maioria das vezes tem caráter totalmente pejorativo, mesmo sendo essa a maior comunidade fora do país de origem que a cidade abriga. E nem preciso citar os termos utilizados pra designar os migrantes ou vizinhos que nos visitam ou por aqui se estabelecem, num bairrismo injustificável.

Traçando um paralelo que pode parecer descabido, tivemos uma experiência marcante na Turquia. Fazíamos uma conexão da Croácia para a Romênia, e paramos durante dez horas no Aeroporto Internacional de Istambul. Nossos planos iniciais consistiam em sair dali, ir almoçar na cidade e depois retornar ao aeroporto. Porém, assim que desembarcamos, uma sensação de miudeza nos dominou assim que vimos o tamanho do lugar. Resolvemos ficar por lá mesmo, e… conhecer o aeroporto. Sim, pode parecer absurdo, mas vimos nesse pânico uma oportunidade de diversão.

Vale a explicação geográfica: a Turquia funciona quase como um semáforo entre Europa, Ásia e África. Ou seja: todos os tipos de cultura desembarcavam e circulavam ali ao mesmo tempo, e isso era inacreditável: africanos em trajes típicos super coloridos e brilhantes, os europeus com toda a sua austeridade característica, e os orientais, que iam dos judeus aos islâmicos, mulheres trajando burca, xador ou hijabs (se eu errei algum desses nomes, desde já peço desculpas), coreanos, japoneses, árabes, além dos próprios turcos. Fora os esporádicos americanos, neozelandeses, australianos… e nós, brasileiros, oras! Era a coisa mais próxima à Copa do Mundo – ou a uma reunião da ONU – que poderíamos presenciar.

Turquia: o semáforo do mundo :)

Turquia: o semáforo do mundo 🙂

Sentamos em um terminal que estava bastante vazio, e ficamos observando maravilhados aquele fluxo impressionante. Quando de repente, uma horda de pessoas (homens em sua maioria) se aproximou e em segundos lotou todas as cadeiras restantes. Vestiam uma espécie de toalha branca, apoiada em um dos ombros e que ia até a cintura, onde dava a volta e cobria dali até pouco abaixo dos joelhos – e nenhuma peça a mais, além de chinelos. Sacaram seus celulares, ipads e afins, tiravam fotos uns dos outros enquanto conversavam e riam como qualquer grande grupo que viaja. Éramos os únicos ocidentais ali, e a cena era tão inacreditável que pensei em tirar uma foto… mas não consegui.

Então estamos aqui, usando fotos de quem conseguiu...

Então estamos aqui, usando fotos de quem conseguiu…

O pensamento que me invadiu foi que “aquilo estava certo, era ‘normal’, e eu é que estava fora do contexto“. É meio difícil explicar essas coisas, mas enquanto homem ocidental branco de mínima capacidade financeira, pela primeira vez eu me vi sendo minoria em alguma coisa na vida. E aquilo foi instantaneamente transformador. Não consegui tratar aquele grupo como um simples registro turístico, por mais descabido que tenha sido meu pensamento – e meu sentimento. É aquela hora em que você percebe o tamanho do mundo: o quanto nosso espaço aqui é ínfimo de tão pequeno, e o quanto não temos ideia das coisas que existem e acontecem neste mesmo planeta. Sim, tem gente que se veste de toalha, ou de tecidos brilhantes e chapéu; que só pode circular ao lado do marido de olhos de fora (às vezes, nem isso) – e que essas pessoas tomam sorvete de casquinha no Burger King; que a imagem daquelas pessoas que só aparecem em nossa TV associadas a terroristas são um povo, que se veste daquela forma, usa barba grande e por vezes pode ser sim mal-encarada (e nem por isso vão explodir seu avião). A gente vive em preconceito – às vezes (ou muitas vezes) sem notar.

Sorvete de casquinha: essa coisa que nenhuma cultura é capaz de censurar (seja ele turco ou do Burger King).

Sorvete de casquinha: essa coisa que nenhuma cultura é capaz de censurar (seja ele turco ou do Burger King).

O mundo é enorme, e as fronteiras são capazes de nos desumanizar. Nenhum povo é melhor que outro, nenhuma religião está “mais certa” que a outra (ou nenhuma), nenhum idioma prevalece, nenhum país deveria desmerecer outro – pois sequer temos ideia das dificuldades que as pessoas que não nasceram “por aqui” passam, ou aquilo que elas realmente podem. Somos todos habitantes dessa mesma bolinha azul, e deveríamos ser capazes de enxergar nessa pessoa diferente aí do lado um vizinho geográfico, e não um alienígena.

Então, pra fechar o pensamento desse breve texto: abrigar quem precisa, compreender suas diferenças (culturais, religiosas e afins), e acima de tudo entender essa unidade sob a qual pisamos e que dá nome ao nosso planeta é fundamental pra que a gente tenha um mundo mais bacana pra viver. Sírios, haitianos, angolanos, cubanos, americanos, orientais ou ocidentais – tem lugar pra todo mundo. E é nossa obrigação não esquecer nunca disso.

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