Bolívia, Perú

Wiphala e as cores do arco-íris

29 de junho de 2015

Aproveitando a deixa de sexta-feira, onde num momento histórico os Estados Unidos aprovaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o país, e dessa decisão uma verdadeira avalanche de arco-íris tomou conta das redes sociais (avalanche essa da qual o Faniquito também participou, óbvia e orgulhosamente), o texto de hoje trata de uma outra bandeira, muito semelhante em sua forma e cores, mas pouco conhecida em território nacional: a Wiphala.

Na Praça das Armas de Cusco, as principais bandeiras do país.

Na Praça das Armas de Cusco, as principais bandeiras do país.

Tivemos nosso primeiro contato com ela durante nossa viagem para o Perú e Bolívia – que juntamente com o Equador, possuem no povo andino a raíz de sua civilização. A cultura andina é exaltada por esses povos, das maneiras mais diversas. Em nossa passagem pelos principais sítios arqueológicos peruanos, nossos guias contavam com orgulho como o povo andino conseguiu camuflar seus ideais e credos em obras europeias, imagens trazidas de fora, e uma série de outros artifícios durante a colonização espanhola. Dessa forma, os andinos conseguiram manter a história de seus antepassados, trazendo adiante uma herança que nós, brasileiros, perdemos com a colonização portuguesa: nossa população nativa foi dizimada, e não sabemos absolutamente nada sobre nossa verdadeira história.

Tendo em vista nossa evolução econômica e o tamanho de nosso território, pode parecer besteira para alguns o resgate desses valores. Mas fato é que o povo andino possui um sentimento nacionalista muito mais forte do que qualquer patriotismo oportunista que costumamos cultivar (principalmente em anos de Copa do Mundo), e um mínimo contato com essa cultura engrandece nossa percepção da riqueza que a história latino-americana possui. E quanto a ela pertencemos.

A bandeira faz parte de todos os eventos pátrios peruanos.

A bandeira faz parte de todos os eventos pátrios peruanos.

A Wiphala está presente em praticamente todo o território desses três países, comumente ladeando a bandeira nacional – nem sempre em seu formato mais conhecido, quadrado e quadriculado, e sim em faixas representando as cores do arco-íris. Algumas partes do território argentino, chileno e colombiano também possuem população andina, o que populariza ainda mais o símbolo na maioria dos países sul-americanos. Em 2007, a nova constituição boliviana incluiu a Wiphala oficialmente como símbolo pátrio.

Confesso que me senti meio alienado quando vi a Wiphala pela primeira vez, e minha reação óbvia foi “que raio de bandeira é essa?”. Pela quantidade (e disposição) de suas cores, ela é facilmente confundível com a bandeira gay, e isso foi o que mais me chamou a atenção naquele momento. E aquilo me incomodou – não a coincidência, mas sim o fato de eu, sul-americano que sou, nunca ter ouvido falar dela.

A Wiphala em sua versão tradicional (quadriculada), que ilustra o início do nosso texto de hoje, e possui algumas versões diferentes, dependendo da região andina representada. Nessa foto, aparece por duas vezes (abaixo da bandeira boliviana, e acima da bandeira britânica).

A Wiphala em sua versão tradicional (quadriculada), que ilustra o início do nosso texto de hoje, e possui algumas versões diferentes, dependendo da região andina representada. Nessa foto, aparece por duas vezes (abaixo da bandeira boliviana, e acima da bandeira britânica).

Acho que a ignorância incomoda naturalmente. Se não o faz, deveria. Desconhecer algo que não faz parte do nosso dia-a-dia deveria despertar a curiosidade. Imergir um pouco na cultura andina (e fizemos isso por algumas vezes, tanto no Perú como na Bolívia) nos trouxe um respeito muito grande por esses povos, sua luta, e um esclarecimento lamentável pela forma como foram massacrados. Às vezes a gente bate naquilo que não conhece, e desmerece quem por algum motivo escolhe caminhos que não os nossos. Foi assim com os andinos. É assim com quem luta todo dia contra o preconceito. Que essas cores, que tanto alegram a gente em dias de chuva e sol, esclareçam de uma vez o quanto o mundo pode ser melhor quando a gente aprende a respeitar – e não massacrar – a bandeira alheia.

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