Faniquito

Tudo mudou

29 de Janeiro de 2015

Não cresci sonhando em viajar, eu confesso.

E nem depois de começar a namorar a Dé (hoje também conhecida como Faniquita) imaginava essa possibilidade como um dos principais e constantes objetivos de vida. Nasci, cresci e me criei em São Paulo. Amo essa cidade como poucas coisas nesse mundo, e ainda não me imagino fora daqui por períodos muito longos. Poucas foram as oportunidades em que estive distante de casa, viajando em família – normalmente férias na praia, ou no máximo um final de ano no Rio Grande do Sul – até 2008, o trajeto mais longo havia sido esse. Formatura em Porto Seguro não conta, pelo caráter de despedida que a viagem envolvia. Por isso mesmo, qualquer pensamento que considerasse algumas semanas distante de casa me parecia incômodo.

Mas veio a primeira aventura: reveillón na Argentina, passagens compradas com seis meses de antecedência. Pedi demissão pouco antes, a Dé foi mandada embora em seguida, e lá fomos nós – namorados desempregados na terra dos hermanos. Oito dias de brigas, acertos e memórias intensas de verdade. De lá reatei minha relação com meu pai, com quem novamente havia brigado pouco antes de partir, num telefonema na virada de ano. Foi o último reveillón que tivemos (ele faleceu em agosto de 2009), e me conforta saber que a felicidade que sentia em terras tão distantes foram capazes de baixar minha guarda, capotar meu orgulho me permitir fazer aquilo que achava certo, simplesmente por fazer, e dividir um último feliz ano novo com o velho. Naquele momento eu me dei conta que essa avalanche de descobertas, esse aprendizado forçado pela necessidade de saber se virar num lugar que você não conhece te transforma e te faz crescer de uma forma inexplicável.

A gente percebe a cada novidade nosso espaço no mundo. Revê constantemente aquilo que é, e onde quer chegar. Nos faz pessoas melhores (mas nem sempre – descobri numa empreitada seguinte que de fato é viajando que a gente conhece as pessoas). Não importa – veio a segunda, a terceira, e dali em diante incorporamos o hábito de viver o mundo plenamente: fosse pesquisando o próximo destino, vasculhando vontades ou enfrentando desafios pessoais. Foi viajando que eu perdi meu medo de altura, caminhei pela primeira vez no gelo, tomei água brotando do chão, machuquei joelho, escalei, fiquei sem tomar banho – e depois tomei o melhor banho do mundo num rio, fiz rapel, trilha, canoagem, conversei em idioma que não domino. E o mais legal de tudo isso: conheci gente. Muita gente. E aprendi coisas que eu adoraria ensinar por aí a quem precisasse ou quisesse. Nada de livro, tudo pelo caminho.

Viajar deixou de ser um intervalo na rotina, pra ser parte do dia-a-dia. Eu enxergava a prática como um período de descanso. Hoje eu não consigo dissociar minhas viagens das transformações que elas sempre proporcionam. Mais do que te renovar e relaxar, viajar te reinventa. E poder renascer a cada nova oportunidade te faz alguém melhor, mais lúcido e com a mente mais aberta. Porque o mundo fica grande demais, e não há olhos, braços ou pernas que bastem.

Sonhar vira necessidade, e pronto: tudo mudou.

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