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Faniquito

Faniquito

Por outros olhos

9 de novembro de 2015

Sempre é divertido acompanhar a aventura alheia. As redes sociais permitem que a gente se aproxime (em tempo real, ou em recapitulação) das viagens dos outros. Amigos, família ou mesmo desconhecidos dividem com o mundo suas experiências, e a gente acaba por alguns instantes invadindo a bagagem e o cotidiano dessas pessoas. A distância faz com que nossa companhia seja superficial, mas por vezes realizamos nossos sonhos e vontades por outras pernas que não as nossas.

Durante esse final de semana recebemos um casal de amigos em casa. Eles nos mostraram fotos de sua última viagem a Gramado. Fizemos o mesmo, e durante aquelas horas me peguei pensando como um mesmo destino pode incitar propostas totalmente distintas de diversão: entre pontos turísticos e natureza, conforto ou improviso, cidade ou arredores. Há alguns dias, uma amiga voltou de uma viagem pelo Oriente (que é um sonho de consumo e lugar de honra em nossa lista de coisas a serem feitas em breve). Ao mesmo tempo, outra amiga nossa* está fazendo o Caminho de Santiago, e a cada foto ou pequeno relato a gente acaba indo junto, e uma aventura da qual sempre tive medo se mostra cada vez mais atrente.

~ A Dé vai adorar saber disso por aqui… ~

Fiquei pensando se ao invés do nosso casal amigo fôssemos nós na viagem a Gramado. E eles, como ficariam no Roraima? Será que o (mais que possível e provável) desconforto com a ideia inicial teria uma chance, assim como Santiago está tendo nesse momento dentro da minha cabeça? Eu, que há alguns anos jamais faria certas coisas que já fiz, e hoje desejo essa viagem pro Oriente tanto quanto a Dé. Não imagino a amiga que está no Caminho de Santiago se contentando com viagens pouco desafiadoras daqui em diante – mas posso estar completamente equivocado. Nunca havia imaginado minha mãe subindo Machu Picchu e excursionando no deserto – até que um dia, aconteceu. Enfim, é um leque de possibilidades – um leque enorme, e que não tem fim.

É redondo, e é lindo.

É redondo, e é lindo.

Você já se imaginou fora da sua bolha? Tentando uma experiência totalmente avessa àquilo que considera ideal? De repente sair do hotel pra tomar um banho frio, ou trocar a praia pela piscina? Um dos princípios que nos incitaram a criar o Faniquito foi justamente esse – o de mexer com essas nossas certezas intocáveis: “nunca vou fazer isso“, “isso não tem a minha cara” ou “eu acho demais, mas não é pra mim” são obstáculos que a gente acaba colocando em nosso próprio caminho.

Esse prazer de enfrentar o próprio medo, abrir a guarda e se deixar levar por uma aventura aparentemente fora de controle pode ser um divisor de águas em nossas vidas. Posso falar isso por experiência própria, depois de perder meu medo de altura durante uma aventura dessas – medo esse que me apavorou durante boa parte da vida. O ato de contar o quanto uma viagem te faz bem e seus porquês tem esse poder de fazer com que a gente enxergue uma possível situação pelos olhos de outra pessoa. Se em algum momento aquele relato te instigar, não tenha medo: mais do que sair de casa, passear pelo mundo te deixa bem longe de outro lugar bastante frequentado e aconchegante – chamado zona de conforto.

Estar longe desse lugar é libertador e aterrorizante, mas faz a gente crescer de uma maneira absurda. Temos várias histórias por aqui que comprovam isso. Inspiração não tem hora, e serve de gatilho para que possamos ir além. Num mundo redondo, ir além é nunca chegar ao fim, por mais longe que se vá. É nossa aposta, e nossa proposta. Sempre 🙂


* Essa baita foto que abre o texto é da nossa amiga que venceu 45 quilômetros em um único dia lá no Caminho de Santiago. Roubei descaradamente (e pedi sua autorização pra isso) pois foi a partir dela que pintou a ideia pro texto de hoje – e quem sabe, a faísca pra gente encarar desafio semelhante mais pra frente? Sorte aí, Ci.

Faniquito, Tailândia

Como escolher
uma operadora de mergulho

15 de outubro de 2015

Por Ângela Goldstein


Conversando com o Masili outro dia, disse que gostaria de enviar um texto meu pro Faniquito e fiquei felicíssima quando minha proposta foi aceita, pra logo em seguida quebrar a cabeça pensando sobre o que eu poderia escrever. Para quem ainda não me conhece – muito prazer, meu nome é Ângela – eu também escrevo um blog de viagens, o Naonde?, e queria apresentar aqui alguma coisa diferente do que eu faço lá. Mas acabei metendo minha colher num angú que eu já conheço muito bem e vou falar sobre mergulho mesmo.

Entre agosto de 2014 e março de 2015 eu trabalhei como divemaster em uma operadora numa ilha no sul da Tailândia, Koh Phi Phi – aquela mesma do tsunami, e essa experiência me tornou muito mais crítica na hora de escolher com quem eu vou mergulhar no futuro. Ter conhecido o outro lado da moeda me chamou a atenção para diversos aspectos que teriam passado em brancas nuvens anteriormente e são eles que eu quero dividir com vocês. Vamos lá?

O que importa, afinal?

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Se você já quer sair de casa com a reserva do mergulho feita para não correr o risco de não ter vaga no barco, procure o máximo de informações pela internet que você puder.

Tripadvisor tá aí pra ser usado e abusado, leia resenhas, procure fotos, veja o site da operadora, saiba há quanto tempo está em funcionamento, veja se ela representa alguma marca de equipamento – em geral, quando as operadoras representam alguma marca, o equipamento que eles têm disponível para locação será dessa marca. Enfim, faça uma busca tão detalhada quanto você faria no perfil do Facebook da nova namorada do seu ex.

Se você prefere ir até o escritório da operadora, o que é melhor ainda, faça todas essas perguntas a quem te atender. Peça para ver fotos do barco, para ver o equipamento, quantas pessoas já estão confirmadas para a saída que você quer fazer etc..

O barco

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Um dos maiores diferenciais da operadora onde eu trabalhei em Phi Phi era o barco, o maior e mais confortável da ilha. Eu sempre mostrava fotos dele para os clientes e vi vários narizes torcidos seguidos do seguinte comentário: “Mas eu nem ligo pro barco…

O chão emborrachado – que só a gente tinha – fazia toda diferença do mundo na hora em que você já estava todo equipado e o mar jogando de um lado para o outro. Um chão bem liso, quando molhado, escorrega mais do que baba de quiabo.

Um banheiro com mais espaço também ajuda pacas na hora de se trocar. Parecem características meio banais e desprezíveis, mas fazem muita diferença quando somadas.

O equipamento

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Uma vez uma cliente que estava se inscrevendo para fazer o curso básico me pediu pra ver o nosso equipamento antes de se decidir. O fim do mês estava chegando, eu precisava da comissão daquela venda, queria acabar com aquilo o mais rápido possível e fiquei pensando: “Mas essa pessoa não tem nem o curso básico, a troco de quê vai querer ver o equipamento que a gente fornece? Tenha santa paciência!

Coloquei o meu melhor sorriso na cara e levei a moça até a sala onde tudo ficava guardado, ela deu uma olhada rápida e fechamos o negócio.

Depois fiquei pensando comigo mesma que, no lugar dela, eu também gostaria de saber o que eu usaria para fazer os mergulhos e em que estado estaria. Ela pode não fazer a menor idéia da função de um colete, mas um colete rasgado ou esfiapado causará uma má impressão, sempre.

Não custa nada pedir para ver o equipamento, isso é parte do trabalho de quem está te atendendo – e se a pessoa ficar de má vontade quando você pedir, problema dela.

Quem vai te levar

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Acho que de todas as dicas desse texto, esta é a mais importante. Se você tiver a oportunidade de conversar com quem vai te levar, não se furte de fazer as perguntas que julgar mais estapafúrdias. De verdade. Mergulho é uma atividade segura? Sim, muito, mas contanto que você siga todos os critérios e, principalmente, que você se sinta perfeitamente confortável com quem está te levando.

Lembro da primeira vez que eu mergulhei, estava ainda um pouco apreensiva antes de me decidir e perguntei pro moço que estava me atendendo: “Se eu ficar com medo… o instrutor segura na minha mão?

Só dei o dinheiro depois de ouvir uma resposta afirmativa.

Você só vai se sentir à vontade se não tiver dúvidas, e você só não vai ter mais dúvidas depois de fazer todas as perguntas que quiser.

Pergunte há quanto tempo o seu instrutor ou divemaster trabalha com mergulho, quais são os melhores pontos, que tipo de animais e corais podem ser vistos naquela região, quanto tempo dura cada mergulho, qual a profundidade máxima, quantas pessoas vão com um mesmo instrutor, como é o briefing antes do mergulho.

Logo depois que voltei para o Brasil fiz uma saída com um instrutor péssimo. Éramos três mergulhadores que seriam guiados pelo mesmo instrutor, eu e um casal de São Paulo que havia tirado a certificação há bem pouco tempo. Quando eu entrei no barco o instrutor pediu para ver minha certificação (sempre um bom sinal!) e ficou todo pimpão ao descobrir que eu sou divemaster, o maior defeito de muito instrutor de mergulho é achar que divemaster é sinônimo de escravo. Não é. Arrumei meu equipamento e fui tomar um solzinho básico no deck, só esperando a hora que ele nos chamaria para dar o briefing do mergulho e cairmos na água. Um tempo depois ele me chamou e disse pra colocar o equipamento e pular.

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Mas qual a profundidade máxima? Quanto tempo ficaríamos mergulhando? O que a gente iria ver? O que faríamos caso o grupo se separasse embaixo d’água? Com que frequência ele consultaria o nosso consumo de ar? Como a gente mostraria isso pra ele?

Todas essas foram perguntas que vieram à minha cabeça, mas às quais eu não dei tanta importância por causa da minha experiência anterior. Eu conheço o meu consumo de ar, eu sei o que fazer caso me perdesse do grupo, eu sei o limite de profundidade que eu posso chegar. Mas e o casal?

Logo que eu pulei na água ele pediu aos meu companheiros que fizessem o mesmo e segurássemos numa corda que estava presa entre o barco e uma pedra. Lembram de todas as perguntas que eu fiz dois parágrafos acima? Pois é, a moça que iria conosco me fez e o folgado do instrutor ainda teve a cara de pau de me pedir para verificar se ela estava com o lastro certo. Eu sei fazer isso? Claro. Eu deveria fazer isso? Não, era o trabalho do bonito e não meu.

Por isso é sempre bom conversar com quem vai te levar e esclarecer todas as suas dúvidas! Mergulho bom é mergulho com segurança!


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Brasil, Faniquito

Um pouco de mamata

28 de setembro de 2015

Voltamos.

De uma experiência nova (pra gente), que se diga. As férias desse ano nos exigiram um planejamento diferente, com gastos mínimos – afinal, sabemos todos que não tá fácil pra ninguém – e alguns incêndios caseiros complicaram ainda mais a coisa. Um cenário suficientemente feio pra fazer explodir qualquer cabeça.

Mas viajar é preciso.

Tem hora que a gente precisa desligar o Netflix e olhar pro céu.

Tem hora que a gente precisa desligar o Netflix e olhar pro céu.

E acabamos fazendo aquele tipo de viagem que nunca ousamos: pegamos um resort a preços módicos e tudo incluso, pra sossegar a cabeça e recarregar as baterias. Uma ideia que passa longe de nos empolgar em situações normais, mas que das poucas possibilidades que tínhamos mostrou-se a mais adequada quando falamos de custo/benefício: um lugar bacana, praia (pela primeira vez em oito anos de namoro, por incrível que pareça), comida e bebida já pagos e nenhum outro tipo de gasto – fora as passagens – que também encontramos quando da pesquisa. Uma semana disso, e uma esticada pro Rio para reencontrar amigas, passear um pouco, e se desse, pegar mais uma praia – afinal, se é pra tostar, que seja direito.

Fomos. E foi tudo muito diferente do que normalmente é. Começando por Ilhéus, que mal conhecemos – afinal, ficamos no Cana Brava* (http://www.canabravaresort.com.br/) durante os sete dias e mal conhecemos a cidade – era esse nosso planejamento, e batemos pé com ele. Chegamos durante a hora do almoço, e à tarde – já devidamente comidos e alojados – caímos na piscina. Alguns minutos depois a Dé vira pra mim e diz:

– É estranho né?
– O que é estranho?
– Não ter pra onde ir…

Não tínhamos mesmo pra onde ir. Mas e daí?

Não tínhamos mesmo pra onde ir. Mas e daí?

E esse foi o primeiro e único momento de estranhamento que tivemos. De fato, não ter que colocar mochila nas costas, mudar de albergue/hotel, conhecer cidade, procurar onde comer ou onde ir era algo até então inédito pra gente. Mas quando colocamos na cabeça que a ideia era descansar, fizemos por onde. E da mesma forma que sempre recomendamos as viagens estradeiras e nômades, podemos afirmar sem dor na consciência que às vezes esquecer de tudo é igualmente necessário, e um pouco de mamata não faz mal a ninguém.

Desencanar: trabalhamos.

Desencanar: trabalhamos.

E podíamos desencanar pra dentro do hotel, pro lado de cá...

E podíamos desencanar pra dentro do hotel, pro lado de cá…

...e pro lado de lá.

…e pro lado de lá.

Isso não significa abandonar um perfil pra se encaixar em outro, e sim adicionar opções e possibilidades na hora de planejar uma viagem. Enquanto estávamos por lá, ficou claro pra gente que não conseguiríamos fazer duas viagens como essa na sequência, porque nos cansa. Nossa pegada é outra, e às vezes uma pausa como essa significa poder dar ao próximo destino dois anos de planejamento ao invés de um (obviamente se você, assim como a gente e a grande maioria dos seres humanos) tiver como período de férias um mês em doze. Serviu como descanso, e somos gratos pela escolha – mas certamente ela não pontua nossos sonhos de consumo.

Nosso texto de hoje serve pra relatar essa experiência diferente – não precisamos ficar publicando fotos de dentro do hotel, das piscinas ou essas coisas que cada um desses lugares costuma fazer muito bem em seus meios de comunicação. Mas sim pra relatar que nosso preconceito com esse tipo de viagem foi por água, assim como todo preconceito deve ir. Então é isso: às segundas e quintas estamos de volta ao batente.

E ainda bronzeados 😉

P.S.: O Rio de Janeiro SEMPRE merece capítulos à parte, e assim ele será contado mais pra frente. Por hoje, sejamos econômicos – e um pouquinho de suspense não faz mal a ninguém…!


*Nossos textos não são patrocinados. A gente indica aquilo que a gente gosta/aprova, porque isso também ajuda na viagem alheia. Simples assim.

Faniquito

Carregando [7%]

6 de setembro de 2015

Viajar mostra pra gente a importância de aproveitar bem o tempo. Isso não significa viver neuroticamente e fazer o maior número de coisas possíveis nesse período, mas sim aproveitar cada momento gastando energia nas coisas certas, ou recarregando as baterias. Não por acaso a gente deseja tanto a chegada das férias. Final de ciclo, começo de outro, oportunidade pra fazer do tempo um aliado, e não um inimigo.

Por isso mesmo, a gente – eu e a Dé – vamos utilizar nossos próximos dias pra isso, porque nossas férias chegaram, e a bateria tá pedindo recarga. Na nossa programação estão novos lugares, velhos lugares, um tempinho de sofá, amigos próximos, amigos distantes e o que mais esses dias nos trouxerem, mesmo porque às vezes o improviso é a melhor opção.

O Faniquito vai junto com a gente – oras, é um projeto de casal, e se o casal sai de férias, o site também ganha uma folga. Prometemos retornar com novas histórias, de fôlego restabelecido, e quem sabe, com outros novos colaboradores. Sim: beirando os primeiros dez meses de vida, ainda temos muito pela frente.

Estamos de volta jajá! Inté!

Brasil, Faniquito, Tailândia

Morre lentamente quem não viaja

3 de setembro de 2015

Por Beta Clapp


Eu nunca fui uma criança muito criança. Eu era daquelas crianças que preferem ler a brincar. Eu tratei de começar a ler muito cedo, provavelmente porque não queria depender da minha mãe toda vez que queria ouvir uma história de que eu gostava ou que queria conhecer alguma nova. E foi, assim, que comecei a viajar. Eu percebi que para viajar a gente não precisava sair do lugar, mas logo entendi que era muito melhor quando a gente saía. Qualquer passeio de carro acabava sendo uma viagem – eu geralmente carregava um livro (hábito que se mantém até hoje, pois nunca saio de casa sem um livro na bolsa para ler no ônibus) que servia como uma música de fundo para o trajeto. Junto com isso, comecei a inventar as minhas próprias histórias. Eu me lembro de uma vez que fui ao Museu Imperial em Petrópolis e me apaixonei por um menino que trabalhava lá. Não sei dizer quantos anos eu tinha, não chegava aos 13, mas eu inventei uma história incrível, tipo Romeu e Julieta, fui muito longe. No começo eu contava tudo para mim, passava aquele dia inteiro do passeio vivendo um personagem, um conto que não divulgava nunca, mas com o tempo aprendi que era uma boa ideia carregar um caderno comigo e ir anotando essas coisas que passavam pela minha cabeça. Eu comecei a unir então a possibilidade de estar em outros lugares, com a experiência de viver novas e outras histórias que não a minha, e registrá-las para além da minha memória. Mais tarde eu descobri que tinha um outro jeito lindo de fazer isso, mas aí era a minha história mesmo – a fotografia me permitiu roubar segundos no tempo e marcar para sempre o meu ângulo daquela passagem.

A vontade de sair por aí sempre me acompanhou. Eu tinha uns 11 ou 12 anos quando pensei em fazer intercâmbio pela primeira vez. Mas a grana era curta e isso nunca aconteceu. Apesar de ter viajado para alguns lugares, eu nunca tinha matado uma vontade enorme que era andar de avião. Aos 21 anos eu entrei em um aeroporto pela primeira vez. Eu devo ter entrado antes disso, mas sinceramente não me lembro. Dessa vez eu estava fazendo entrevista para um emprego em uma empresa terceirizada que prestava serviço de check-in, embarque, etc., para três empresas internacionais. Eu fui contratada e no primeiro dia contei para o pessoal da equipe que nunca tinha entrado em um avião. Fiz o check-in do meu primeiro vôo e de repente passaram um rádio me chamando para o portão de embarque. Quando cheguei lá, os meninos me chamaram e disseram: Vem que você hoje vai entrar num avião. Foi uma das coisas mais bacanas e gratuitas que já fizeram por mim. Talvez eles nem saibam o quanto aquilo foi importante e me fez feliz naquele momento.

Mas andar mesmo de avião só aconteceu quando eu já tinha 27 anos. Foi um vôo Rio-Campinas saindo do Santos Dumont. Era um domingo, estava um dia lindo e o meu lugar era na janela. Primeiro preciso dizer que era uma viagem a trabalho e eu tinha perdido o meu vôo. Tive que transferir, ia dar uma mega zica, porque eu ia ficar um tempão esperando em Campinas até pegar o outro avião. Nada disso importa. O que importa mesmo é que eu estava apavorada, o avião parecia um ônibus com asas de tão pequeno e apertado e eu ia voar. O cara do meu lado abriu uma revista e nem se abalou quando aquele teco-teco disparou na pista. Não sei se vocês já decolaram ou pousaram no Santos Dumont, mas garanto que parece que o avião vai dar um mergulho no oceano. Ou dar de cara com uma montanha. Eu fui suando do Rio até Campinas, com as mãos geladas e com vontade de socar o cara do meu lado que não movia um músculo enquanto eu jurava que ia ter piripaque.

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Essa foi a minha primeira viagem de avião. A minha primeira viagem sozinha. Eu cheguei no aeroporto, aluguei um carro e dirigi umas boas três horas até chegar onde precisava. Essa noite eu pedi várias cervejas no quarto do hotel, fiquei bêbada, pedi uma pizza e depois dormi. Me senti sozinha e estranha. O dia seguinte já foi diferente: eu ia sair de carro dali, resolver meia dúzia de coisas e depois ia para outra cidade. Foi quando eu me lembrei de uma coisa que eu amo: dirigir em estrada. Eu estava em outro estado, indo para uma cidade que não conhecia, sozinha, de carro, ouvindo música e não conseguia disfarçar o sorriso no rosto. Eu estava super feliz. Aquele emprego que eu não curtia tinha me trazido uma coisa incrível: eu estava viajando.

Vieram outras depois. E outras. E mais outras. E eu fui ficando cada vez mais esperta nessas viagens. Eu escolhia hotéis, levava minhas câmeras, parava nas estradas para fotografar o que eu queria e inventava minhas histórias. Eu chegava um dia antes para poder dar um rolé pela cidade. Pra ver o movimento. Eu andava pelas ruas prestando atenção e pensando em como seria morar em cada canto daqueles. Eu aprendi a jantar sozinha em um restaurante que me interessasse em vez de pedir uma pizza solitária no quarto do hotel. Eu dava um jeito de resolver tudo que precisava para sobrar um tempinho para mim. E foi assim que eu fui nas Cataratas do Iguaçu. Dirigi mais de 1000 km em dois dias (e isso não é exagero) para conseguir ir no Parque na manhã antes de voltar. Dessa vez eu conheci um garoto também, mas eu não inventei a história – puxei assunto, começamos a conversar, tiramos várias fotos um do outro (o que às vezes falta quando a gente viaja sozinho) e no final quando me despedi dei um beijo na boca dele 🙂 . Acho que ele não entendeu muito bem, mas tranquilo. Eu entendi.

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Foi no final desse mesmo ano que eu fiz a minha primeira viagem internacional. Uma amiga ia tirar férias e me convenceu a ir com ela. Eu ia estrear meu passaporte indo para a Tailândia. Sim, isso mesmo. Eu não sabia nada, não fazia ideia de como organizar uma viagem e fui seguindo a minha amiga e as dicas dos amigos dela e dos outros dois amigos que iam com a gente. Seriam 20 dias de viagem, com uma passagem de praticamente um dia inteiro por Amsterdam. Era lindo demais. Era muito além do que eu podia imaginar.

Foram 12h do Rio até Amsterdam. E quando eu desci no aeroporto, foi como se fosse a primeira vez. Eu lembro que quando chegamos na plataforma do trem que ia levar a gente para o centro da cidade eu falei: Vou dar um beijo na boca daquele cara (meio perigosa essa mania de querer beijar a boca das pessoas quando estou feliz). Era muita felicidade – eu estava em outro mundo, aquele cenário era impossível de imaginar e eu tinha muitas histórias para contar. O mais lindo disso tudo? No final daquele dia eu ia entrar em outro avião e 12h depois estaria em Bangkok.

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O que começou a pegar para mim desde o início da viagem foi: cadê minha liberdade? Eu queria andar, olhar, sentir, perceber, experimentar tudo que fosse possível. Eu nunca estava cansada ou preocupada se a minha roupa estava bonita. Eu queria viver aquela história, e estar com outras pessoas deu ruído no meu roteiro. Eu estava em um conflito – eu amava os meus amigos, queria estar com eles, mas eu sentia como se falássemos línguas diferentes. Eu me senti tão só quanto naquele primeiro quarto de hotel, tomando cerveja e pedindo pizza. Eu me sentia presa. Eu me sentia tolhida. Eu tinha e queria companhia, mas, até hoje não sei dizer exatamente o que aconteceu. Eu estava sufocada. Talvez porque aquilo era muito grande para mim, porque eu esperei muitos anos para ter aquela experiência. Mas no fundo eu acho que era porque eu vivia aqueles dias como se eu nunca mais fosse voltar lá, muito por ter passado uma vida querendo fazer aquilo e não poder, principalmente por não ter grana. Só que dessa vez eu tinha. E eu não queria perder tempo me arrumando para sair, ou dormindo, ou tomando cerveja num bar vendo uns amadores lutando muay thai. Eu queria tudo.

Foi então que eu comecei a escrever a minha história. Na verdade, ela começou num acaso daqueles  que na maioria das vezes a gente demora demais e perde o timing. E uma coisa levou a outra e a outra e a outra. Eu tive um segundo para decidir e disse: Vocês podem ir, eu vou ficar – nos vemos em uma semana em Bangkok. E foi assim, como num sonho lúcido que eu escolhi que ia seguir só dali para frente. De início, eu não estava totalmente só, ia passar 3 dias com uma galera, depois ia seguir sozinha para outro lugar e só mais alguns dias mais tarde eu iria reencontrar meus amigos.

Na primeira noite, fomos para uma night em Koh Samui. E foi apenas incrível e vou usar uma cena de um filme que amo para tentar ilustrar:

No dia seguinte, eu acordei e todo mundo estava dormindo. Eu sentei nessa varandona aí da foto, olhei para esse marzão e tive um treco. Sim. Meu peito apertou e eu tive uma crise de choro. Eu me dei conta de que eu estava do outro lado do planeta e que ninguém que eu conhecia sabia onde eu estava. Que os amigos com quem eu tinha ido para lá estavam em outro país. Eu me dei conta de que eu era eu e somente eu pela primeira vez na vida. E estar sozinha naquele segundo me fez perceber que o mundo é uma coisa maravilhosa e que a vida pode e deve ser linda sim. Parece papo clichê-babaca-auto-ajuda. Mas não é não. E eu contei isso tudo só para dizer que a melhor parte da viagem é aquela em que a gente se sente livre, porque a maior parte do tempo na nossa vida real, no nosso roteiro burocrático, a gente luta para ser. A gente passa a maior parte do tempo tentando se sentir tudo e foi exatamente não me sentir nada que fez com que eu me sentisse completa. Muito além de ser tudo, ser parte de tudo é lindo demais.

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Daí em diante houve mais viagens. Não muitas, não tantas quanto eu gostaria. Mas as que precisavam acontecer. A maior delas foi pedir demissão do meu emprego um mês depois de voltar da Tailândia. Uma viagem maravilhosa, um barco que larguei para nunca mais voltar. Depois disso eu fui ao Qatar sozinha visitar um dos caras que conheci na Tailândia (sim, eu namorei um cara que mora no Qatar). Depois eu fui para Ilha Grande. Algumas vezes para São Paulo. E ano passado fui para Buenos Aires. Sozinha.

Eu demorei um bocado para conseguir parir um textinho aqui pro Faniquito. Um dia eu conto detalhes das viagens, dicas, lugares e coisas que gostei. Vou contar coisas sobre o Rio e sobre outros picos que eu gosto por aqui por perto. Mas eu precisava começar dizendo: não espere nunca alguém para conhecer o mundo, não tenha medo de ir, não tenha medo de se perder, não busque companhia fora de você. Mudar de lugar é aumentar o nosso raio de referência, é mudar as perspectivas, é se perceber desimportante, pequeno. É você ter que se amar e se bastar acima de tudo. E isso é bom.

(Seja do Neruda, seja da Martha, a frase que dá nome a esse texto é, em primeiro lugar, uma homenagem a uma amiga que viveu pouco, mas não morreu lentamente.)


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Faniquito, Fazendo as malas

Portas em automático

20 de agosto de 2015

Por Erica Hideshima


Faniquito. Palavra que define toda santa viagem. Pra mim, a empolgação é a mesma na hora de fazer uma mala de cinco quilos pra passar o fim de semana trabalhando nos eventos esportivos da vida, ou quando preparo meus dois grandes volumes de 32 quilos pra passar um mês fora. E, confesso, conter a ansiedade de escrever sobre isso está bem complicado – uma palavra atropela a outra, dá vontade de contar um monte de histórias num post só…mas vou tentar me controlar.

Dizem por aí que “viajar é trocar a roupa da alma”. E como eu gosto de shopping, gente. Sério: viajar é a coisa que mais amo na vida – mais do que comer e dormir.

Cada vez que a gente sai de casa, sempre volta com um monte de coisas que dariam excesso de bagagem se fossem palpáveis e tivéssemos de colocar nas malas. Memórias, sensações, sabores e cheiros que sempre serão lembrados – mesmo que você volte para o mesmo lugar depois de anos.

Depois de rodar e rodar por aí a gente acaba criando rituais para que cada vez a viagem funcione melhor. Esses são os primeiros passos depois que escolho pra onde ir:

  • Checar o formato da tomada (e a voltagem dela)
  • Checar a temperatura média no mês
  • Checar os meios de transporte públicos.
Transporte público: pra ficar de olho (e às vezes fotografar)

Transporte público: pra ficar de olho (e às vezes fotografar)

  • Conferir no TripAdvisor as dicas de pontos turísticos e hotéis.
  • Fazer um roteiro dia-a-dia (flexível, claro), já estipulando quanto dinheiro gastar por dia e quais são os lugares a serem visitados – sempre cumprindo a ordem de prioridades. Geralmente eu seguro bastante o dinheiro nos primeiros dias, pra poder esbanjar da metade pra frente caso não haja nenhum imprevisto no meio do caminho.
  • Reservar os hotéis quase sempre no www.booking.com, que reserva e cancela quase sempre de graça.
  • Avaliar o custo benefício do hotel em relação aos lugares onde quero ir. Geralmente, procuro ficar perto de estações de trem e metrô pra chegar mais rápido nos pontos que quero visitar.
Tudo fica mais fácil com mobilidade

Tudo fica mais fácil com mobilidade

  • Ter sempre dinheiro a mais pra imprevistos como o citado aqui embaixo.
  • Especialmente checar os aeroportos menores se você viaja com companhias low cost – teve uma vez que achei que iria de Frankfurt pra Veneza e era em um aeroporto a mais de 100km de onde eu estava. Ou seja: é como se estivesse em Congonhas e tivesse de pegar o vôo em Viracopos. Me ferrei e desembolsei mais de 100 eurecas pra chegar ao aeroporto. E era um táxi ilegal – ou seja, se tivessem me matado e jogado no mato, jamais teriam descoberto. Espero que minha mãe não leia isso.
  • Guardar seu passaporte como se fosse sua vida – sim, me roubaram o passaporte em Nápoli. Acreditem: o passaporte brasileiro é o mais caro no mercado negro, já que brasileiro não tem cara de nada e tem cara de tudo. Vale a pena comprar aqueles porta documentos que você usa dentro da calça. Coloque ali também o cartão de crédito e seu dinheiro.
  • Ter um cartão pré-pago ligado à sua conta bancária. No Itaú, por exemplo, tem o Global Travel – transfiro dinheiro da minha conta pro cartão pagando uma taxa que vale a pena na hora de comprar aquele monte de coisa que a gente paga muito mais caro no Brasil.
  • Não pare na rua pra dar atenção pra gente puxando papo do nada. Os caras são muito bons em levar suas coisas sem você nem perceber. Em Paris, por exemplo, tem o golpe do anel de ouro. Eles tentam parar as pessoas na rua dizendo que elas deixaram cair o anel de ouro. Passe reto – e muito rápido.
  • Atenção para o peso da sua bagagem: em vôos intercontinentais as malas podem pesar 32 quilos cada. Mas se você for voar em companhias low cost dentro da Europa ou Estados Unidos, muitas vezes você só pode despachar uma mala – com, no máximo, 23 quilos. Os caras enfiam a faca mesmo porque sabem que as pessoas não podem jogar a bagagem fora.
Fique de olho na balança (da bagagem)

Fique de olho na balança (da bagagem)

  • Leve uma farmacinha na bolsa. Remédios para dor-de-cabeça, cólica e alergias nunca são demais. Sou meio hipocondríaca, confesso, mas me sinto muito mais segura saindo de casa sem medo de comprar coisas desconhecidas se eu passar mal.

Enfim, seguir guias pode ser muito chato. E minha intenção não é fica botando o terror em ninguém. Sei quanto enche o saco alguém dizendo “faça isso, faça aquilo”…

Disto isso, encerro minha primeira participação no Faniquito já com faniquito de escrever outro post. Mas aí, prometo, vai ser sobre por onde andei…e por onde quero andar.


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