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Brasil, Faniquito, Tailândia

Morre lentamente quem não viaja

3 de setembro de 2015

Por Beta Clapp


Eu nunca fui uma criança muito criança. Eu era daquelas crianças que preferem ler a brincar. Eu tratei de começar a ler muito cedo, provavelmente porque não queria depender da minha mãe toda vez que queria ouvir uma história de que eu gostava ou que queria conhecer alguma nova. E foi, assim, que comecei a viajar. Eu percebi que para viajar a gente não precisava sair do lugar, mas logo entendi que era muito melhor quando a gente saía. Qualquer passeio de carro acabava sendo uma viagem – eu geralmente carregava um livro (hábito que se mantém até hoje, pois nunca saio de casa sem um livro na bolsa para ler no ônibus) que servia como uma música de fundo para o trajeto. Junto com isso, comecei a inventar as minhas próprias histórias. Eu me lembro de uma vez que fui ao Museu Imperial em Petrópolis e me apaixonei por um menino que trabalhava lá. Não sei dizer quantos anos eu tinha, não chegava aos 13, mas eu inventei uma história incrível, tipo Romeu e Julieta, fui muito longe. No começo eu contava tudo para mim, passava aquele dia inteiro do passeio vivendo um personagem, um conto que não divulgava nunca, mas com o tempo aprendi que era uma boa ideia carregar um caderno comigo e ir anotando essas coisas que passavam pela minha cabeça. Eu comecei a unir então a possibilidade de estar em outros lugares, com a experiência de viver novas e outras histórias que não a minha, e registrá-las para além da minha memória. Mais tarde eu descobri que tinha um outro jeito lindo de fazer isso, mas aí era a minha história mesmo – a fotografia me permitiu roubar segundos no tempo e marcar para sempre o meu ângulo daquela passagem.

A vontade de sair por aí sempre me acompanhou. Eu tinha uns 11 ou 12 anos quando pensei em fazer intercâmbio pela primeira vez. Mas a grana era curta e isso nunca aconteceu. Apesar de ter viajado para alguns lugares, eu nunca tinha matado uma vontade enorme que era andar de avião. Aos 21 anos eu entrei em um aeroporto pela primeira vez. Eu devo ter entrado antes disso, mas sinceramente não me lembro. Dessa vez eu estava fazendo entrevista para um emprego em uma empresa terceirizada que prestava serviço de check-in, embarque, etc., para três empresas internacionais. Eu fui contratada e no primeiro dia contei para o pessoal da equipe que nunca tinha entrado em um avião. Fiz o check-in do meu primeiro vôo e de repente passaram um rádio me chamando para o portão de embarque. Quando cheguei lá, os meninos me chamaram e disseram: Vem que você hoje vai entrar num avião. Foi uma das coisas mais bacanas e gratuitas que já fizeram por mim. Talvez eles nem saibam o quanto aquilo foi importante e me fez feliz naquele momento.

Mas andar mesmo de avião só aconteceu quando eu já tinha 27 anos. Foi um vôo Rio-Campinas saindo do Santos Dumont. Era um domingo, estava um dia lindo e o meu lugar era na janela. Primeiro preciso dizer que era uma viagem a trabalho e eu tinha perdido o meu vôo. Tive que transferir, ia dar uma mega zica, porque eu ia ficar um tempão esperando em Campinas até pegar o outro avião. Nada disso importa. O que importa mesmo é que eu estava apavorada, o avião parecia um ônibus com asas de tão pequeno e apertado e eu ia voar. O cara do meu lado abriu uma revista e nem se abalou quando aquele teco-teco disparou na pista. Não sei se vocês já decolaram ou pousaram no Santos Dumont, mas garanto que parece que o avião vai dar um mergulho no oceano. Ou dar de cara com uma montanha. Eu fui suando do Rio até Campinas, com as mãos geladas e com vontade de socar o cara do meu lado que não movia um músculo enquanto eu jurava que ia ter piripaque.

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Essa foi a minha primeira viagem de avião. A minha primeira viagem sozinha. Eu cheguei no aeroporto, aluguei um carro e dirigi umas boas três horas até chegar onde precisava. Essa noite eu pedi várias cervejas no quarto do hotel, fiquei bêbada, pedi uma pizza e depois dormi. Me senti sozinha e estranha. O dia seguinte já foi diferente: eu ia sair de carro dali, resolver meia dúzia de coisas e depois ia para outra cidade. Foi quando eu me lembrei de uma coisa que eu amo: dirigir em estrada. Eu estava em outro estado, indo para uma cidade que não conhecia, sozinha, de carro, ouvindo música e não conseguia disfarçar o sorriso no rosto. Eu estava super feliz. Aquele emprego que eu não curtia tinha me trazido uma coisa incrível: eu estava viajando.

Vieram outras depois. E outras. E mais outras. E eu fui ficando cada vez mais esperta nessas viagens. Eu escolhia hotéis, levava minhas câmeras, parava nas estradas para fotografar o que eu queria e inventava minhas histórias. Eu chegava um dia antes para poder dar um rolé pela cidade. Pra ver o movimento. Eu andava pelas ruas prestando atenção e pensando em como seria morar em cada canto daqueles. Eu aprendi a jantar sozinha em um restaurante que me interessasse em vez de pedir uma pizza solitária no quarto do hotel. Eu dava um jeito de resolver tudo que precisava para sobrar um tempinho para mim. E foi assim que eu fui nas Cataratas do Iguaçu. Dirigi mais de 1000 km em dois dias (e isso não é exagero) para conseguir ir no Parque na manhã antes de voltar. Dessa vez eu conheci um garoto também, mas eu não inventei a história – puxei assunto, começamos a conversar, tiramos várias fotos um do outro (o que às vezes falta quando a gente viaja sozinho) e no final quando me despedi dei um beijo na boca dele 🙂 . Acho que ele não entendeu muito bem, mas tranquilo. Eu entendi.

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Foi no final desse mesmo ano que eu fiz a minha primeira viagem internacional. Uma amiga ia tirar férias e me convenceu a ir com ela. Eu ia estrear meu passaporte indo para a Tailândia. Sim, isso mesmo. Eu não sabia nada, não fazia ideia de como organizar uma viagem e fui seguindo a minha amiga e as dicas dos amigos dela e dos outros dois amigos que iam com a gente. Seriam 20 dias de viagem, com uma passagem de praticamente um dia inteiro por Amsterdam. Era lindo demais. Era muito além do que eu podia imaginar.

Foram 12h do Rio até Amsterdam. E quando eu desci no aeroporto, foi como se fosse a primeira vez. Eu lembro que quando chegamos na plataforma do trem que ia levar a gente para o centro da cidade eu falei: Vou dar um beijo na boca daquele cara (meio perigosa essa mania de querer beijar a boca das pessoas quando estou feliz). Era muita felicidade – eu estava em outro mundo, aquele cenário era impossível de imaginar e eu tinha muitas histórias para contar. O mais lindo disso tudo? No final daquele dia eu ia entrar em outro avião e 12h depois estaria em Bangkok.

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O que começou a pegar para mim desde o início da viagem foi: cadê minha liberdade? Eu queria andar, olhar, sentir, perceber, experimentar tudo que fosse possível. Eu nunca estava cansada ou preocupada se a minha roupa estava bonita. Eu queria viver aquela história, e estar com outras pessoas deu ruído no meu roteiro. Eu estava em um conflito – eu amava os meus amigos, queria estar com eles, mas eu sentia como se falássemos línguas diferentes. Eu me senti tão só quanto naquele primeiro quarto de hotel, tomando cerveja e pedindo pizza. Eu me sentia presa. Eu me sentia tolhida. Eu tinha e queria companhia, mas, até hoje não sei dizer exatamente o que aconteceu. Eu estava sufocada. Talvez porque aquilo era muito grande para mim, porque eu esperei muitos anos para ter aquela experiência. Mas no fundo eu acho que era porque eu vivia aqueles dias como se eu nunca mais fosse voltar lá, muito por ter passado uma vida querendo fazer aquilo e não poder, principalmente por não ter grana. Só que dessa vez eu tinha. E eu não queria perder tempo me arrumando para sair, ou dormindo, ou tomando cerveja num bar vendo uns amadores lutando muay thai. Eu queria tudo.

Foi então que eu comecei a escrever a minha história. Na verdade, ela começou num acaso daqueles  que na maioria das vezes a gente demora demais e perde o timing. E uma coisa levou a outra e a outra e a outra. Eu tive um segundo para decidir e disse: Vocês podem ir, eu vou ficar – nos vemos em uma semana em Bangkok. E foi assim, como num sonho lúcido que eu escolhi que ia seguir só dali para frente. De início, eu não estava totalmente só, ia passar 3 dias com uma galera, depois ia seguir sozinha para outro lugar e só mais alguns dias mais tarde eu iria reencontrar meus amigos.

Na primeira noite, fomos para uma night em Koh Samui. E foi apenas incrível e vou usar uma cena de um filme que amo para tentar ilustrar:

No dia seguinte, eu acordei e todo mundo estava dormindo. Eu sentei nessa varandona aí da foto, olhei para esse marzão e tive um treco. Sim. Meu peito apertou e eu tive uma crise de choro. Eu me dei conta de que eu estava do outro lado do planeta e que ninguém que eu conhecia sabia onde eu estava. Que os amigos com quem eu tinha ido para lá estavam em outro país. Eu me dei conta de que eu era eu e somente eu pela primeira vez na vida. E estar sozinha naquele segundo me fez perceber que o mundo é uma coisa maravilhosa e que a vida pode e deve ser linda sim. Parece papo clichê-babaca-auto-ajuda. Mas não é não. E eu contei isso tudo só para dizer que a melhor parte da viagem é aquela em que a gente se sente livre, porque a maior parte do tempo na nossa vida real, no nosso roteiro burocrático, a gente luta para ser. A gente passa a maior parte do tempo tentando se sentir tudo e foi exatamente não me sentir nada que fez com que eu me sentisse completa. Muito além de ser tudo, ser parte de tudo é lindo demais.

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Daí em diante houve mais viagens. Não muitas, não tantas quanto eu gostaria. Mas as que precisavam acontecer. A maior delas foi pedir demissão do meu emprego um mês depois de voltar da Tailândia. Uma viagem maravilhosa, um barco que larguei para nunca mais voltar. Depois disso eu fui ao Qatar sozinha visitar um dos caras que conheci na Tailândia (sim, eu namorei um cara que mora no Qatar). Depois eu fui para Ilha Grande. Algumas vezes para São Paulo. E ano passado fui para Buenos Aires. Sozinha.

Eu demorei um bocado para conseguir parir um textinho aqui pro Faniquito. Um dia eu conto detalhes das viagens, dicas, lugares e coisas que gostei. Vou contar coisas sobre o Rio e sobre outros picos que eu gosto por aqui por perto. Mas eu precisava começar dizendo: não espere nunca alguém para conhecer o mundo, não tenha medo de ir, não tenha medo de se perder, não busque companhia fora de você. Mudar de lugar é aumentar o nosso raio de referência, é mudar as perspectivas, é se perceber desimportante, pequeno. É você ter que se amar e se bastar acima de tudo. E isso é bom.

(Seja do Neruda, seja da Martha, a frase que dá nome a esse texto é, em primeiro lugar, uma homenagem a uma amiga que viveu pouco, mas não morreu lentamente.)


Se você quiser participar das publicações do Faniquito com suas histórias, curiosidades e dicas de viagem (e não importa o destino), é só entrar em contato com a gente por esse link. Todo o material deve ser autoral, e será creditado em nosso site.

Argentina, Áustria, Brasil, Estive lá

A vez das pessoas

27 de agosto de 2015

Experimentamos durante o último final de semana a sensação de, pela (nossa) primeira vez, circular à pé no asfalto da maior avenida da maior cidade da América do Sul. Não é qualquer coisa restringir o acesso da Avenida Paulista a pedestres e ciclistas, e é uma das várias atitudes que nosso atual prefeito vem tomando para humanizar um pouco mais a metrópole virulenta que vivemos. As atitudes de Fernando Haddad têm sido polêmicas, muito mais pela cultura de ódio permeada atualmente na população brasileira, do que pelas ações em si.

A utilização de espaços públicos é coisa a qual não estamos acostumados, ainda mais quando ela acontece de graça e com fácil acesso. O paulista orgulha-se em ter o Ibirapuera como parque, mas sabe o quão difícil é seu acesso, e a quantidade de pessoas que o frequenta (principalmente nos finais de semana) afugenta os que procuram um pouco de paz e tranquilidade, ou mesmo outras alternativas de espaço – com comércio, restaurantes, espetáculos ou qualquer outro tipo de lazer. São Paulo é estigmatizada por carimbar com filas e/ou preços proibitivos suas principais atrações (temos o ótimo Sinta-se Paulistano satirizando essa imagem mais do que merecida que a cidade tem). E isso mina o ânimo de quem busca um pouco de sossego, ou ainda quem não tem dinheiro pra prestigiar tais atrações, afinal de contas, já temos filas, stress e preços altos suficientes durante a semana. Prorrogar essas dores cotidianas para nossos dias de folga é coisa a ser considerada. Sempre.

Longe de São Paulo vivemos dois momentos muito marcantes da chamada “vida ao ar livre” antes de presenciarmos o acontecimento do último domingo, e vamos contá-los rapidamente por aqui:

Começando por nossos vizinhos, e sua notória simpatia por espaços públicos. Tivemos a melhor das impressões em nossa primeira viagem ao notar que não era somente nos grandes parques (como o Rosedal, na foto) que os argentinos se esparramavam, com suas cuias de mate, livros, radinho, bola e toalha. Grandes ou pequenas, em Buenos Aires ou Ushuaia, eles têm por hábito curtir as praças, calçadões e ruas com sua família e amigos. Esses espaços se fundem com a cidade num convívio dos mais harmoniosos possíveis. De fácil acesso e espalhados pela cidade, perto ou longe do metrô, dia ou noite, de bicicleta ou à pé, as praças e parques argentinos estão sempre cheios de gente, todos os dias da semana.

Parques, praças e muita, muita gente.

Parques, praças e muita, muita gente.

Atravessamos o oceano e chegamos até Viena (que foi tema de nosso texto anterior) – uma cidade notoriamente cara, todos sabemos ou fazemos ideia. Mas com algumas características que valem MUITO destaque: a começar pela semelhança com as cidades argentinas no que se diz respeito aos parques e praças. Gente de todas as idades se espalha pelos gramados e alamedas da cidade, dia e noite.

Se espalhar no gramado: aprovamos.

Se espalhar no gramado: aprovamos.

Mas o que mais nos tocou foi um acontecimento em particular: acabamos não assistindo a nenhuma ópera na cidade, e isso poderia ser uma lacuna em nossa viagem. Mas ao passarmos em frente ao Wiener Staatsoper (a Ópera de Viena), um imenso telão na sua lateral transmitia ao vivo e com um som muito bacana o espetáculo que acontecia lá dentro – e cujos preços são condizentes a uma ópera. Em Viena. Na Ópera de Viena. Uma multidão de pessoas assistia ao espetáculo sentada na calçada, no chão ou em cadeirinhas e banquinhos trazidos de casa, comendo uma pizza e tomando um vinho. Diversão, música e cultura –  de graça. Fizemos o mesmo, e ficamos por alguns minutos ali, curtindo não só a ópera, mas as pessoas. Era dia de semana – se não me engano, uma quinta-feira. Um momento que a gente certamente não esquecerá.

Ópera na rua. Quem diria?

Ópera na rua. Quem diria?

Voltemos à Paulista, que experimentamos ao lado de um casal de amigos cariocas no último domingo. Diversos comerciantes sabiamente abriram suas lojas. Outras tantas pessoas levaram seus carrinhos (de comida, de bugigangas, de serviços) pra calçada, e juntaram-se às tradicionais feirinhas do MASP e do Trianon. Vimos grupos de teatro, bandas tocando, gente fotografando, fazendo piquenique, lendo livro na calçada. Pais e filhos à pé ou de bicicleta, num clima tão bom que nos sentimos… turistas. Existe sensação melhor que essa?

Em São Paulo, o Minhocão já tem o trânsito de veículos restrito há tempos durante os finais de semana. Algumas avenidas da cidade (principalmente as atendidas por metrô e trem) como a Paulista, a Faria Lima e a Sumaré são sim ótimas opções para o passeio livre em dias de descanso. Temos as Viradas Culturais, onde a cidade toda vira um imenso palco dia e noite (e cuja qualidade e organização vêm melhorando com o passar do tempo). Com a possibilidade de utilização desses espaços, podemos sair de casa. Conhecer pessoas, reencontrar amigos. Nos divertir sem gastar tubos. Fazer nosso piquenique. Desafogar o Ibirapuera e outros parques. Termos uma vida mais saudável, sem enterrar nossas finanças numa academia. Enfim, aproveitar uma cidade que se orgulha tanto do tamanho que tem, mas que tem se mostrado dia-a-dia uma metrópole de gente egoísta e intolerante.

Talvez nos falte educação, ou estejamos saturados. Mas nenhuma justificativa explica o fato nos afastarmos cada vez mais daquilo que o ser humano tem de mais precioso – a possibilidade de conviver em harmonia com pessoas de diferentes origens, características e gostos. Ninguém que está feliz julga alguém que também está sorrindo – seja pelo motivo que for, é um fato. E nos propiciar alguns momentos de felicidade em lugares que estamos acostumados a correr e xingar é uma iniciativa que nós apoiamos e prestigiamos irrestritamente.

Se pudéssemos resumir esse texto em uma imagem, seria esta.

Se pudéssemos resumir esse texto em uma imagem, seria esta.

Brasil, Faniquito, Perrengues

A primeira vez

10 de agosto de 2015

Acordamos e decidimos abrir o guia, numa página aleatória. Seria aquele nosso destino do dia – dependendo, do final de semana. Minha mãe mandou bater… Cunha. Pronto, temos pra onde ir. Onde fica Cunha? Não faço a menor ideia…! Vamos levar o guia pra padaria e descobrir enquanto a gente toma café? Vamos.

E assim nasceu nossa primeira viagem (já resumida em um parágrafo aqui mesmo, certa vez).

Café tomado, uma mochilinha com troca de roupa. Pegamos o carro e a estrada. Cunha é uma cidadezinha paulista (bem conhecida, diga-se – a gente é que nunca tinha ouvido falar mesmo), localizada quase na divisa com o Rio de Janeiro. Pelo caminho fomos descobrindo que é também a capital nacional do Fusca, entre outras curiosidades que nosso guia nos proporcionava. Mas não estamos aqui pra falar de Cunha – por mais que devêssemos. A história vale um texto porque nos propusemos a meter as caras num lugar novo de uma hora pra outra, e assim fizemos.

Das melhores sensações.

Das melhores sensações.

Apesar da carta de motorista desde os 21, seria minha primeira estrada na vida (uma vez que comprei meu carro só 2008 – ano em que reaprendi na marra a dirigir). Seguimos do final da manhã até a metade da tarde um caminho gostoso, com calma e uma certa ansiedade de quem está “fazendo acontecer” pela primeira vez na vida. Assim que chegamos, encostamos o carro num canto e fomos aproveitar o sossego do lugar. Tudo novo, tudo acontecendo pela primera vez – a gente inclusive, como casal novo e com a massa fresca, de quem ainda não sabia se teria futuro. Um passeio pelo centrinho, algumas fotos do fim de tarde, era hora de procurar algum lugar para passar a noite.

Um pouco de sossego, um novo amigo...

Um pouco de sossego, um novo amigo…

...um fim de tarde e uma boa história pra contar.

…um fim de tarde e uma boa história pra contar.

Rodamos a cidade inteira, literalmente (parece exagero, mas a cidade inteira é rodável, acreditem). Nenhuma vaga, em lugar algum. Recomendaram que fôssemos pra Parati. Longe demais pra risco semelhante, acabamos indo pra Guaratinguetá – igualmente sem vagas. Eis que num acaso bizarro, perguntamos no meio da estrada pra um motoqueiro se ele sabia de algum lugar, e ele nos sugeriu um motelzinho em Lorena. Agradecemos, mas não sabíamos sequer como chegar.

Eu levo vocês lá – ele disse. E a gente seguiu o motoqueiro. Até O MOTEL – que era um pulgueiro, mas tinha vaga, um chuveiro e uma cama. Nos bastava.

Com tudo absolutamente do avesso ao que havíamos imaginado, resolvemos seguir para Ubatuba no dia seguinte. Tentaria salvar aquela primeira viagenzinha indo até Itamambuca, mas chegando no entroncamento para as praias, o caminho estava totalmente entupido de gente. Nos conformamos em ficar por ali mesmo, numa praia mais central (e cuja qual obviamente não lembro o nome), que seria nosso destino para o almoço.

Que foi sensacional, e disso me lembro bem.

Algumas dessas conchinhas hoje estão aqui em casa.

Algumas dessas conchinhas hoje estão aqui em casa.

E nosso almoço não foi nada ruim, pra algo que nem namoro era ainda.

E nosso almoço não foi nada ruim, pra algo que nem namoro era ainda.

Paulistas que somos, botar o pé na areia já valeria pelo final de semana. Mas naquele momento a Dé sugeriu irmos atrás de um lugar chamado “cachoeira do macaco”, que ela havia lido (no guia ou numa placa, também não lembro). Procuramos incessantemente, até sermos guiados por um frentista, e darmos de cara com uma caixa d’água da Sabesp. Mais algumas voltas, e terminamos num lugarzinho mais gostoso, que compensou aquela volta toda.

A água que queríamos não estava numa caixa...

A água que queríamos não estava numa caixa…

E a soma de tudo deu... nisso :)

E a soma de tudo deu… nisso 🙂

Deu tudo errado, e nada saiu como planejado. Não importa. A primeira vez é inesquecível (pro bem ou pro mal, sabemos todos disso), e dali em diante começaríamos a ganhar experiência nessa coisa de viajar.

Tudo isso pra dizer e insistir: bote o pé na estrada. Sim, a situação econômica está terrível pra todo mundo. Mas assim mesmo, com um mínimo (às vezes, um tanque de gasolina, dinheiro pro pedágio e uns sanduíches na sacola térmica) a gente aumenta nosso mundo pessoal. Pode dar tudo errado: você pode dormir num pulgueiro, levar multa, pegar estrada no breu, dar de cara com uma linda e frondosa caixa d’água. Ainda assim será uma história a ser contada lá na frente. E toda história, quando bem contada, é muito boa. Saber rir da própria desgraça, mais ainda. Então, meta as caras. E não poupe seu dedo de fazer o trabalho do cérebro quando o assunto for escolher um destino, quando este insistir em te podar desses momentos.

Brasil, Gastronomia

Babem, gringos

20 de julho de 2015

Com o termo sendo utilizado de forma totalmente pejorativa nos últimos tempos, o Faniquito de hoje vem exaltar (e indicar*) dois lugares pra você se deleitar com aquela iguaria maravilhosa e tipicamente brasileira, chamada coxinha.

Só dois? Sim, só dois. São os que a gente ama, que têm um preço bacana, uma coxinha “tamanho gordinho” e cujo passeio (afinal, estamos num site de viagens) é bem bacana.

Porém, contamos com a colaboração dos nossos amigos e leitores para aumentarmos o número de indicações. Sem melhores ou piore, a ideia é somente indicar lugares em que a gente vai pra comer, e sai sorrindo. Às indicações, portanto:

Praça Cheese Lanchonete

Isso é uma foto de celular, sem Photoshop.

Isso é uma foto de celular, sem Photoshop.

Em frente à FNAC Pinheiros, um bar com mesas na calçada (aprovamos) pode passar em branco aos mais apressados. Recomendação? Esqueçam a pressa. O atendimento é bacana, a cerveja é gelada, com uma boa variedade de rótulos e sem frescuras gourmet, graças a Deus e à Sil – a dona do bar e sua futura amiga, caso você tenha 5 minutos pra um bom papo. E sim, ela lembra do seu nome depois de 3 ou 4 visitas.

Mas o papo é coxinha, e a de lá é referência na região – sendo inclusive indicada por hotéis e albergues próximos à gringaiada que procura pelo quitute nacional. É uma das histórias que a Sil mais conta, sempre com novos fatos, como bilhetinhos desajeitados de gente que vem de todo canto do mundo.

A coxinha não decepciona nem um pouquinho, sendo muito bem servida, e atendendo àquelas coisas que a gente procura no salgadinho ideal – sequinha, bem recheada e crocante. E no conjunto da obra, o bar – que não é badalado como o Frangó, o Veloso ou outros lugares de São Paulo – deixa saudade. Mas como fica do lado do metrô Faria Lima, dá pra voltar sempre – pra mais uma coxinha e um papo na calçada.

Praça Cheese Lanchonete
R. Álvaro Anes, 25 – Pinheiros – São Paulo/SP

Padaria Real

O triângulo de queijo cobriu um pouco a foto. Desculpem.

O triângulo de queijo cobriu um pouco a foto. Desculpem.

Quer pegar uma estrada no fim de semana? Sorocaba é um ótimo destino pra quem ama o salgadinho. “Mas você vai pegar estrada e pagar pedágio pra comer coxinha?” – SIM, meus amigos. E não é exagero. Assim que você chega à cidade, escolha uma das (agora quatro) lojas da cidade. São enormes, e a marca da padaria traz a data de sua fundação: um lugar que foi fundado em 1957 e está aberto e imponente até hoje não é pouca coisa.

Mesmo com o tamanho das padarias – muito semelhante às grandes padarias que a gente conhece por aí – o que mais impressiona é a frequência das fornadas de coxinha, necessária à demanda dos clientes locais e forasteiros, que vêm aos montes experimentar a iguaria.

Obviamente que não é só coxinha que a padaria vende (e o triângulo de queijo se tornou outra necessidade deste que vos escreve sempre que visita  a dita cuja). Mas sem dúvida, é a grande estrela da casa, inclusive com algumas variações interessantes – já pensou numa coxinha de bacalhau? Pois bem, eles têm. Mas fique com a tradicional. Coma quantas aguentar, e não tenha vergonha de levar pra viagem. É inevitável.

Padaria Real
R. da Penha, 1.373 – Centro – Sorocaba/SP

E você, onde levaria seu amigo gringo pra apresentar esse quitute sensacional? Indique suas preferências pra gente 🙂


*Nossos textos não são patrocinados. A gente indica aquilo que a gente gosta/aprova, porque isso também ajuda na viagem alheia. Simples assim.

Brasil

São Paulo, da Cantareira

6 de abril de 2015

“Da primeira vez em que fomos lá, em dezembro de 2012, se não me engano o Shin tinha lido sobre esse passeio em algum blog ou matéria. Só que a gente foi meio no escuro, tanto que nem levamos comida e tal… chegamos no laguinho, ficamos 40 minutos e voltamos. Mas a gente sempre ficou com isso em mente: a gente precisa voltar com um grupo legal pra fazer um piquenique”.

Foi assim que a Van (que já escreveu por aqui, e possivelmente aparecerá outras vezes logo mais) justificou a convocação para o passeio desse final de semana: uma subida até a Pedra Grande, no Parque da Cantareira, e um piquenique mais adiante. Aproveitar a cidade num feriado é sempre um bom programa em São Paulo – se você souber como fazê-lo.

Então fomos em sete: a Van e o Shin, eu e a , a Jan, o Moraes e o Klein. Devidamente reunidos pelo caminho e agrupados no metrô Santana por volta das 10h, seguimos dali até o acesso à trilha, feito a partir do Núcleo Pedra Grande, no Parque Estadual da Cantareira.

Todo mundo é digno até a subida começar.

Todo mundo é digno até a subida começar.

A chegada ao parque é bem tranquila (pode ser feita de carro ou ônibus numa boa). Estacionamos numa rua próxima à entrada, e de lá seguimos. O acesso ao Núcleo Pedra Grande custa R$ 12 (somente em dinheiro – crianças menores de 12 anos, adultos com mais de 60 anos e pessoas com deficiência não pagam, estudantes pagam meia-entrada). Diz-se que o preço para estacionar por perto é de R$ 6, mas paramos de graça duas ruas abaixo, e ninguém nos perturbou. O parque fica aberto das 8 às 17h.

A Van nos contou que o acesso à Pedra Grande podia ser feito de carro, mas com o tempo sua entrada foi proibida, sendo permitido somente o acesso à pé. A trilha tem ao todo 9,6km (ida e volta), contando o desvio para a Pedra Grande e a área de piquenique, e constitui-se basicamente de subidas na ida, e descidas na volta (sendo somente a última perna desse trajeto – justamente o acesso à área de piquenique – feita de forma inversa). Portanto, prepare as pernas assim que entrar no parque.

Faça seu alongamento e seu xixizinho antes da subida :)

Faça seu alongamento e seu xixizinho antes da subida 🙂

A boa notícia é que essa subida, apesar de possuir alguns trechos bastante íngremes, é relativamente tranquila. O primeiro trecho – e o mais extenso – dá acesso à Pedra Grande. Ele é todo asfaltado, e sombreado pela Mata Atlântica, o que ajuda muito na subida, e deixa o passeio mais gostoso. Existem algumas áreas planas intercalando o trajeto, ótimas para retomar o fôlego, e tomar um gole d’água. Sim, leve água (dica óbvia para qualquer caminhada, mas cuja lembrança é sempre pertinente). O tempo estimado de trilha é de duas horas, e é um programão pra quem está começando – são poucos os desníveis, e com calma até os mais despreparados são capazes de vencê-la.

A trilha é bem tranquila, mas subida é subida...

A trilha é bem tranquila, mas subida é subida…

...e ela devagarinho vai te fazendo suar.

…e ela devagarinho vai te fazendo suar.

Subimos “acompanhados” de um grupo de italianos, cruzamos com vários japoneses descendo a trilha, e em nossa chegada não foram poucos os idiomas que permeavam o ambiente. Não resistimos a conhecer os parques alheios quando nos afastamos de casa, e o mesmo acontece por aqui. Mas antes de falar da área de piquenique, um pouco mais sobre a subida.

Alguns trechos são mais puxados, mas vale a pena.

Alguns trechos são mais puxados, mas vale a pena.

Chegando na Pedra Grande, o visual arrebata – e nem poderia ser diferente. São Paulo do avesso é um visual difícil de ser comparado a qualquer outra coisa no mundo. O horizonte de prédios e relevos geométricos da cidade corta a paisagem de lado a lado, apoiado numa cama verde – justamente a divisão entre a cidade e a pedra onde estávamos sentados. É um visual incrível mesmo… e a sensação é de poder “diminuir o volume” daquele monstro ali adiante, pra poder admirá-lo com calma. Um barato. Pouco adiante, no Museu da Pedra Grande, existe outro mirante. E de lá essa visão fica ainda mais ampla.

São Paulo logo ali, gigantesca como sempre.

São Paulo logo ali, gigantesca como sempre.

Mas desse ângulo impressiona ainda mais.

Mas desse ângulo impressiona ainda mais.

E não termina.

E não termina.

Informação bizarra: tem sinal de celular lá em cima.

Seguimos em direção à área de piquenique – nesse momento o asfalto dá lugar à terra. Poucos metros adiante, uma placa sinaliza o final de São Paulo e o início de Mairiporã. Mais alguns minutos de descida, uma paradinha numa casa com acesso proibido – cujo aspecto em si já basta pra afastar caras como eu, e chegamos ao nosso destino.

Seguindo adiante, deixamos São Paulo pra trás.

Seguindo adiante, deixamos São Paulo pra trás.

A subida agora é de terra.

A subida agora é de terra.

Resident Evil.

Resident Evil.

Tivemos sorte: uma mesa ficou vaga assim que chegamos, e pudemos nos instalar numa boa. Não eram poucos os que haviam se arriscado durante a manhã para chegar ali, mas nem de longe o número de pessoas lembrava aquela invasão paulista ao Ibirapuera, Villa-Lobos ou afins durante qualquer final de semana com sol. Famílias inteiras, crianças e velhinhos, casais e grupos de amigos dividiam espaço numa bagunça com cara de sábado. Ainda sobre as mesas: não vimos ninguém se estapeando por uma, e aparentemente aquele jogo de War que acontece em praças de alimentação não é uma prática local.

Chegamos :)

Chegamos 🙂

A gente veio aqui pra comer ou pra conversar?

A gente veio aqui pra comer ou pra conversar?

Ficamos próximos ao lago de água esscura, que é recheado de peixinhos. Uns borboletões enormes nos fizeram companhia durante todo o tempo em que estivemos por lá. Pouco depois do lanche, uma pausa pra deitar na grama, tirar um cochilão, umas várias fotos, ou até mesmo encontrar algum amigo, que por acaso teve a ideia de estar no mesmo lugar, no mesmo dia e no mesmo período.

Uma garrafa de vinho quebrou. Embebedamos as borboletas.

Uma garrafa de vinho quebrou. Embebedamos as borboletas.

Obrigado vinho. Obrigado borboletas.

Obrigado vinho. Obrigado borboletas.

Uma visão geral do parquinho.

Uma visão geral do parquinho.

Uma visão mais de perto :)

Uma visão mais de perto 🙂

Além do playground e das mesas, existem banheiros masculino e feminino – ambos muito bem cuidados, com papel (e rolinho extra) inclusive. Reabastecemos nossas garrafinhas d’água nas torneiras do banheiro, e numa biquinha próxima ao lago, cuja existência só notamos pouco antes de ir embora. Saímos de lá por volta das 16h, e nosso caminho de volta demorou uma hora redondinha, coincidindo com o horário de fechamento do parque.

Sim, água. Na Cantareira.

Sim, água. Na Cantareira.

Sossego e tranquilidade. As piadas e a infâmia não saíram nessa foto.

Sossego e tranquilidade. As piadas e a infâmia não saíram nessa foto.

Um fim de tarde maiúsculo.

Um fim de tarde maiúsculo.

Um passeio como esses às vezes gera certa desconfiança: “Mata Atlântica em São Paulo? Se eu quiser ver árvore passeio no Ibirapuera“, algum ranzinza pode dizer; “Trilha asfaltada? Não tem nada de natural nisso“, é o discurso que pode sair da boca de outro reclamão. Não amiguinhos, é bem diferente disso. Um passeio desses pode funcionar como uma pontadinha de esperança na gente, que anda tão desanimado com tudo por aqui – sim, tomamos água na Cantareira, respiramos um ar mais que puro, tomamos sol, curtimos silêncio, aproveitamos a cidade passeando entre as árvores – um verdadeiro disparate. É bom… esperança sempre é bom. E o passeio, mais que recomendável.

Brasil, Faniquito

“A gente precisa mergulhar”

10 de março de 2015

Da ideia à concepção foram aproximadamente sete meses. Estávamos em nossa última viagem, fazendo um passeio de caiaque. O grupo parou em uma praia para descansar, e além dos sanduíches, máscara e snorkel estavam disponíveis para quem quisesse nadar um pouco e dar uma olhada nos peixinhos. Foi o que fizemos, e mágico talvez defina a sensação que tivemos ali – a Dé especialmente, que chegou doida pelo caiaque, e saiu apaixonada pelos peixinhos.

A gente precisa mergulhar – ela disse.

Com essa frase voltamos pra casa, e esse pensamento virou um mantra, que virou pesquisa, que virou matrícula. Era início de dezembro quando passamos pela Narwhal Morumbi*, fizemos um orçamento e poucas semanas depois compramos nosso equipamento básico: snorkel (o canudinho), máscara, nadadeiras (aprendemos que o bagulho NÃO CHAMA pé-de-pato) e botas (pra proteger o pé, pois as nadadeiras são abertas e presas com alças). O dinheiro estava curto, e esse já era um pequeno investimento. Deixamos o curso pra depois.

Foi-se janeiro – e todas as suas contas. Em fevereiro voltamos à loja e fechamos o curso de Open Water Diver, certificação equivalente ao mergulhador nível básico. Optamos pela Narwhal pelo fato dessa certificação ser homologada pela PADI (Professional Association of Diving Instructors), que é um órgão reconhecido mundialmente, e cuja carteirinha também vale planeta fora – algo interessante o suficiente pra quem quer viajar mergulhando, ou mergulhar viajando. Aí vai de cada um… a gente se contenta com ambos 🙂

O curso consiste num treinamento de quatro dias, dividido em dois finais de semana: no primeiro, um dia somente de carga teórica, e o outro de treinamento prático em piscina; o outro, dois dias de mergulhos em águas abertas. Parece pouco, “quatro dias pra aprender a manejar aquilo tudo, enfiar um tubo na boca e respirar debaixo d’água sem engasgar e morrer“. Pelo menos era esse meu pensamento… e é um pensamento que faz sentido, até você começar a entrar em contato com o negócio todo.

Fizemos testes dos dois primeiros dias com o Gustavo e a Adriana – nossos instrutores. Do material didático que o curso oferece, um DVD – que assistimos anteriormente – já dá uma boa adiantada no conteúdo, que é estranho à primeira vista, mas que passa a fazer sentido durante a aula. No fim do dia, uma provinha pra deixar a coisa toda ainda mais emocionante. Mas tudo correu bem, e domingo estávamos na piscina, tendo nosso primeiro contato com o equipamento completo (exceto a roupa). Montamos e desmontamos tudo por diversas vezes, simulamos trocentos exercícios, fizemos teste de natação, e vencemos alguns medos (como desalagar a máscara debaixo d’água – algo que parece humanamente impossível, que te fará afogar assim que você tentar, até o momento em que você faz, e parece a coisa mais óbvia e simples do mundo). Foi um dia puxadíssimo, mas adoramos. Saímos de lá elétricos, e ansiosos para fazer o checkout (ou batismo – o termo que se usa pros testes em águas abertas).

Gustavo e Dri fazendo tudo parecer possível :)

Gustavo e Dri, fazendo tudo parecer possível 🙂

Então a Dé teve a ideia: Já que nosso aniversário de casamento tá quase aí, por que não fazer o checkout juntando as datas? E assim, agendamos nossa ida a Ilhabela para esse último final de semana (dias 7 e 8 de março). Descemos um dia antes, pois nosso aniversário foi dia 6, e por lá comemoraríamos.

Não conhecíamos. Ilhabela é um lugar bonito pra burro. Pedimos algumas dicas de hospedagem, e acabamos ficando no Hostel Central Ilhabela (http://www.hostelcentralilhabela.com/). Ótima localização, um serviço atenciosíssimo da Luana (recepcionista e faz-tudo), nos estabelecemos e logo a seguir fomos jantar pra comemorar nossa data-pretexto… afinal de contas, não é todo dia que a gente completa bodas de madeira/ferro (sim, eu procurei). E comemoramos à altura (vá com fome ao Pìmenta de Cheiro – http://www.pimentadecheiroilhabela.com.br/ –  preços não muito módicos, mas pratos deliciosos e ogros que valem a pena), porque tem muito casal que desmancha bem antes disso.

Pra descer todo santo ajuda ( a subida foi um inferno, à noite e com chuva...)

Pra descer todo santo ajuda ( a subida foi um inferno, à noite e com chuva…)

Durante a descida, uma parada pro xixi, e também pra acompanhar um afago desajeitado no inglês, enquanto matavam impiedosamente o português

Durante a descida, uma parada pro xixi, e também pra acompanhar um afago desajeitado no inglês, enquanto matavam impiedosamente o português

Albergue mais que honesto, com direito a ventilador de teto e ar condicionado

Albergue mais que honesto, com direito a ventilador de teto e ar condicionado

O jantar das bodas de madeira

O jantar das bodas de madeira

Chegou o sábado. Mesmo com o tempo fechado e chuvoso durante os dois dias, correu tudo muito bem. Um novo grupo de instrutores (o Kauê – que faz inclusive recomendações culinárias, o Vinicius, o Guilherme e o Ricardo), e mais ouros 13 iniciantes compuseram nosso grupo: tinha casal de noivos, gente que já mergulhava clandestinamente mas tomou vergonha e foi se certificar, gente que estava indo viajar, uma menina menor de idade acompanhada dos pais, casal de namorados, enfim… uma galera.

Nosso barco, e a galera (a foto é do segundo dia)

Nosso barco, e a galera (a foto é do segundo dia)

O primeiro dia não foi fácil. A ambientação com aquela roupa de neoprene, a ansiedade em montar o equipamento direitinho, a equipagem com mais um monte de gente ao seu redor (fizemos o curso em piscina com somente uma menina), e não fazer feio ao cair na água. Depois de cair, notar o quão diferente é o mar de uma piscina. Parece uma imbecilidade falar isso, mas é verdade… a visibilidade é totalmente diferente, e as correntezas são um fator inédito até aquele momento. Além disso, engolir água salgada é bem diferente (e pior) do que aquela água da piscina. O lastreamento é totalmente diferente, e se habituar com tudo isso te dá um enrosco emocional num primeiro momento. Mas aos poucos a coisa vai fluindo. Lá embaixo, o primeiro contato com os peixinhos é emocionante, sem brincadeira. O receio de fazer besteira com o oxigênio vai embora com a calma que o ambiente te passa, e aos poucos você relaxa e aproveita. Mesmo com pouca visibilidade, a gente até conseguiu brincar um pouco, olhar ao redor e ver que nosso mundo de fato tinha aumentado. Fizemos outros testes (semelhantes aos feitos na piscina), e ao final do dia estávamos totalmente esgotados. Tanta confusão até desanima um pouco assim que você pode parar e descansar, mas toda novidade é assim: começa difícil pra aos poucos virar uma coisa natural. Essa era nossa esperança, e com esse pensamento voltaríamos no dia seguinte.

Dois cilindros pra cada um

Dois cilindros pra cada um – e sim, é a gente que monta o equipamento 🙂

Alguns de nossos melhores amigos do final de semana

Nossos melhores amigos durante o final de semana

Repusemos as energias seguindo as indicações do Kauê, e fomos à Creperia N’Areia  (http://www.creperianareia.com.br/ – peça pelo número 23), e na creperia também pudemos conhecer melhor os instrutores e o pessoal do mergulho… um happy hour merecido, fechado com um churro ali do lado, num verdadeiro carrinho de comida, e não essas porcarias gourmet (Churros Lorac: http://tinyurl.com/oqc22jy). Voltamos ao albergue e capotamos.

De onde sai o barco pela manhã, chegam os peixes à noite

De onde sai o barco pela manhã, chegam os peixes à noite

Honesto, gostoso e barato - recomendamos!

Honesto, gostoso e barato – recomendamos!

No segundo dia repetimos a dose. Porém, com a tensão deixada pra trás, o dia fluiu com muito mais tranquilidade e as coisas pareciam bem mais simples. Tivemos os problemas que todo iniciante tem (e que bom, afinal de contas é pra isso que estávamos fazendo um curso, e não bancando o herói): algumas dificuldades para a equipagem, mas dessa vez sabíamos das variantes do nosso local de mergulho. Mais alguns exercícios durante a manhã, e um mergulho turístico simulado – acompanhado de um instrutor, em caráter observador – para fechar o treinamento. Voltamos ao barco debaixo de uma chuva monstra, e de lá fizemos nossa última reunião, onde foram apontados todos os problemas, méritos, mudanças e recomendações para que tomássemos dali em diante. Todos se certificaram no fim das contas, e o saldo ao final de toda essa maratona é que cumprimos uma de várias etapas. Missão cumprida, hora de encher o bucho e pegar a estrada.

A partida do segundo dia :)

A partida do segundo dia 🙂

Reunião antes do mergulho

Uma reunião antes do mergulho

Chegou a hora de ir mais fundo, depois de sete meses de planejamento...

Chegou a hora de ir mais fundo, depois de sete meses de planejamento…

... e assim fomos :)

… e assim fomos 🙂

A galera na água, antes de ir lá pro fundo

A galera na água, antes de ir lá pro fundo

O resultado: água, equipagem, e um sorriso descabido

O resultado: água, equipagem, e um sorriso descabido

O almoço dos campeões, antes de cinco horas e meia de serra

O almoço dos campeões, antes de cinco horas e meia de serra

A coisa mais bacana é saber o quanto se dispor a começar uma aventura dessas é capaz de expandir seus horizontes, e multiplicar as possibilidades de destinos possíveis. Olhar para o mar e não pensar somente em molhar os pés ou dar uma nadada. Ir além, conhecer um pouquinho do que existe ali embaixo. Foi essa a grande descoberta, feita involuntariamente sete meses antes, e confirmada agora há pouco. Dá pra ir além, sempre dá. O negócio é procurar o jeito certo de fazer isso, respirar fundo e meter as caras. Vale a pena, e pode ser mais bacana do que você imagina.


*Nossos textos não são patrocinados. A gente indica aquilo que a gente gosta/aprova, porque isso também ajuda na viagem alheia. Simples assim.